2009/10/04

Acróstico torto

Os universitários viajavam em pequenos grupos durante as férias de inverno. E naquela noite fria reuniram-se em volta da fogueira para as cantorias ao som do violão. Marcos não era muito bom nessa arte, mas arranhava alguma coisa, enquanto que Pedro, esse sim, era muito bom. O repertório de Marcos também não era dos melhores. Contudo faziam duos ou solos. Pedro e Marcos eram muito amigos e inseparáveis. Fizeram muitas das traquinagens da adolescência juntos, mas nesta viagem estavam em campos opostos. Eram três rapazes e quatro moças. Luiz e Carolina já namoravam há três anos. Ana Paula, Júlia e Flávia estavam sozinhas, mas quis o destino que Marcos e Pedro empreendessem uma disputa velada por Ana Paula. Ela era a única do grupo que não era universitária. Era professora primária. Foi aí que ele descobriu que Pedro tinha um ás na manga quando começou a tocar as musicas mais difíceis de Chico Buarque, de João Bosco e alguns blues. Marcos ficou admirado, pois nunca o tinha visto tocando aquelas músicas. Sentia que perderia a disputa se não fizesse algo, rápido, para superar Pedro. Ana Paula de tímida não tinha nada, mas também não era sapeca. O que mais lhe chamava a atenção era a sua beleza. Olhava para os dois com a mesma ternura angelical e não demonstrava o seu interesse particularmente por nenhum dos dois ou para os dois.

Na disputa, a cada investida, um olhava para o outro numa atitude de duelo e desafio. Ana Paula impassiva olhava para eles com a sua candura peculiar. Júlia e Flávia viviam para lá e para cá provendo o grupo de bebidas e tira-gostos. Luiz e Carolina pareciam sentir mais frio que os demais e se comprimiam em abraços entremeados de beijos apaixonados.

O duelo estava deixando Ana Paula cada vez mais excitada, sempre que percebia que aqueles cânticos se dirigiam a ela. Nessa altura ela demonstrava carinho para ambos com um certo charme feminino que provocava Marcos cada vez mais.

Aproveitando o intervalo em que comiam e bebiam alguma coisa, ele pegou um pedaço de papel e uma caneta e quase de uma vez escreveu:

Aqui reunidos em volta da fogueira
Nasce uma grande paixão que
Anima-se em meu peito

Palpitando de emoção,
Ardor e devoção.
Urge pois uma atitude
Lugar provável de
Amor e sedução.

vê-la tão só e desprotegida
acode em meu ser
todo o fervor e a empolgação
desse acróstico torto.

Mal acabou de escrever entregou a Ana Paula, que começou a ler. Ele observava todos os seus movimentos quando percebeu uma lágrima escorrer por entre os olhos.

Marcos vibrava. Certamente ganhara a contenda, pensou. As lágrimas eram a demonstração inequívoca de uma paixão correspondida. Também nele surgiu uma pequena lágrima de merecimento por tal comoção. Lágrima que mal se pronunciava, logo interrompeu-se diante da tapa que ele levou. Dada de palma da mão aberta e com impulso de quem leva a mão lá atrás para voltar com toda a força.

Foi a tapa mais doída que recebeu em toda a sua vida. O deixou abatido por alguns instantes. Até o fogo parou de crepitar nos seus ouvidos. Parecia que ele seria encerrado numa masmorra, preso a ferros para só sair de lá depois de muito velhinho. Ela correu para um dos quartos com o papel na mão. O papel queimava- as mãos e a alma. Ele correu atrás dela na esperança de entender os motivos ou mudá-los.

Debruçada sobre o travesseiro chorava e soluçava. Ele olhava-a nesse estado de desamparo com as nádegas avolumadas pela posição, como uma oferenda. Isso aumentava, ainda mais, o seu ardor. Júlia e Flávia também acudiram. Xingavam e agrediam Marcos em cumplicidade com Ana Paula. Marcos tomou-a pelos ombros e virou com uma interrogação. O que houve? Pergunta que não chegou a fazer, pois ia tomar outra tapa que não se concretizou porque ele, instintivamente, segurou o seu pulso. Frustrada pela nova investida, ela rasgou o papel jogando-o ao chão e voltando a cara para o travesseiro em nova sessão de choro.

Júlia calmamente abaixou-se pegando o papel rasgado e retirou-se do quarto seguida por Flávia e por ele. Elas lhe lançaram um olhar que cheirava ódio e desprezo , tomando as dores da amiga.
Marcos retornou à fogueira com a cara mais bestificada que lhe acudiu. Pedro dedilhava um blues “Do nothing till you hear from me” (1) que, fez-se ouvir como se Ella Fitzgerald estivesse cantando.

Nunca sentiu tanto ódio em ouvir aquela música, como naquele momento. A cara de deboche de Pedro o irritou como nunca. Parecia dizer: eu não ganhei, mas você também não ganhou!

E nesse momento dedilhava “I cried for you” (2), olhando-o com escárnio e superioridade. Julia e Flavia, as inseparáveis, surgiram com sorrisos escandalosos. Traziam os pedaços colados com durex e repetiam em voz alta:

acode em meu ser
todo o fervor e a empolgação
desse acróstico torto.

Foi por causa do seu acróstico torto, disse apontando para Marcos. A gargalhada agora era generalizada e até Pedro parou de tocar para gargalhar também.

Marcos apenas balançou a cabeça, lado a lado: “o que eu faço com alguém que não sabe o que é um acróstico e muito menos torto?”

1-Não faça nada antes de me ouvir
2-Eu chorei por você

2009/08/31

saudade



saudade para quem ama
é como se fosse a flor
que de todo seu esplendor
ainda não se sentisse o aroma.

é como quem fica na cama,
imerso na lembrança do que for,
sem sentir ainda a dor
e espera noticia com calma.

partir também dói,
pois fica o silêncio
que no peito corrói.

saudade é a nostalgia
do objeto amoroso perdido
que esperamos volte, um dia.

2009/08/22

o amante

im, eu sou amante!
amante de tudo,
amante da vida, das coisas,
do que há adiante!

como viver sem amar,
sem sentir, o frio na barriga,
a dor na espinha,
os olhos enunviados?

lagrimas que correm
e escorrem como cachoeiras!
dizem no seu ritmo
o que acontece no seu intimo!

caricias desejadas,
incontidas e amadas.
desejo de posse
nunca atingido!

poetizar sobre o desejo
poetar sobre a alma
fazer do desejo um queijo
e degluti-lo com bom vinho e calma!

ah doçura, encantamento,
de uma prece ao relento!
do convívio desamparado
e do amor desesperado!

sabedoria mínima
de um coração sereno
que em minh’alma anima
e faz de mim um ser pleno!

sim, sou amante e não nego.
faço destes versos um alento
e espero como um cego
de ser lido a contento!

2009/08/16

Poesia numa hora dessas?

Por Martha Medeiros*

Peguei emprestada a expressão que o Verissimo usa para apresentar seus poemas. É que eu quero falar justamente sobre poesia, um assunto que me parece emergencial, apesar de que tudo leva a crer que não é o momento. Gente morrendo por causa da gripe H1Nl, o Sarney insistindo no "daqui não saio, daqui ninguém me tira" e psicóloga se dedicando a "curar" gays, francamente: poesia numa hora dessas?

É que estive no Rio duas semanas atrás e, além do divertido e caloroso encontro com os leitores aqui da revista para comemorar os cinco anos desta publicação, participei também de um recital poético organizado pela escritora. e atriz Elisa Lucinda em sua Casa Poema. A Casa Poema nada mais é do que uma utopia levada a cabo. Elisa mantém uma casa antiga em Botafogo onde ela ensina pessoas a ler poesia, dizer poesia (o verbo "declamar" é proibido) e gostar de poesia. Promove bate-papos com escritores, faz audições públicas da obra de inúmeros autores brasileiros, abre espaço para pequenas apresentações e para sessões de autógrafos, tudo de forma muito afetiva e sem luxo. Só pelos serviços prestados, a Casa Poema deveria ser tombada pelo Patrimônio Histórico. E Elisa deveria ser tombada junto, porque o que ela faz é suprir uma carência dos nossos currículos escolares: ela educa para a sensibilidade e os sentidos.

Elisa me deu de presente o livro que transcreve o encontro que ela teve na mesma Casa Poema com o escritor Rubem Alves. Corra e adquira o seu, foi lançado pela editora 7 Mares. Nesse livro, Elisa e Rubem discutem sobre o desserviço que é obrigar uma criança a ler um livro de que não gosta, sobre o poder que a arte tem de transfigurar maus destinos, sobre o quanto a poesia pode ensinar tudo (geografia, história, matemática) e como não há jeito de se reter conhecimento se não houver emoção. E eles vão mais longe: acusam os professores que empurram livros goela abaixo de seus alunos sem eles mesmos estarem "tomados" pela beleza e importância do que estão recomendando, e aí, lógico, não conseguem ensinar o prazer da leitura. Aliás, é bom lembrar que encantamento deve começar em casa. Não é à toa que as crianças que ouviram seus pais contando histórias são as que, quando adultas, mais se sentem atraídas pelo universo mágico da literatura.

Escutar um poema. Falar um poema em voz alta. Perceber seu ritmo, sua música, sua comunicabilidade. Elisa Lucinda tem o talento de transformar qualquer verso em algo fácil e acessível. Ela prova por a + b que poesia não precisa ser um troço chato. Quando uma amiga lhe telefona contando sobre uma dor íntima, Elisa saca na hora um poema para ajudá-la a entender melhor o que está sentindo. Elisa é uma outra espécie de doutora: prescreve poesia. Um Tamiflu emocional que ela distribui generosamente.

Mas poesia logo agora que a bruxa está solta no espaço aéreo, que há censura aos veículos de comunicação na Venezuela (e, em alguns casos, aqui também) e que os políticos estão perdendo as estribeiras e deixando caírem suas. máscaras em plenário?

Pois é, me pareceu um momento oportuno.

Email: martha.medeiros@oglobo.com.br

Pois é! Como deixar de publicar um texto como esse. tanto pela beleza do seu escrio quanto pelas importantes informações que ele contem.

*Texto publicado na Revista Domingo - 16 de agosto de 2009 - ELA DISSE - do Jornal O Globo.

Espero, portanto estar prestando um serviço.
Abraços Rogério




2009/08/06

contos e cantos



cada conto contado
concentra centenas de charadas.
casta criatura conta às crianças
como começaram os casos castos.

certo carteiro corria
como curumim
carregando as contas comandadas:
créditos, credos e convites

no caminho continha centenas
de casas cuidadas com canteiros.
casa em casa, caiadas e com cachorros
que cobriam cada calçada.

continham colégios, cemitérios,
camelôs e carrocinhas.
criaturas civilizadas
conversavam como comadres.

cada criança
contava centavos
para comprar Crush, cuscuz
e concluíam comprando cocadas.

como nos colégios
os colegas colocados em circulo
cantarolavam contos
criados como convinham.

2009/07/29

Feliz aniversário!



se o amigo de mim duvidar
das coisas que tenho a dizer,
deve ao menos concordar
que uma rima eu sei fazer.

é com emoção que aqui digo:
seu aniversário viemos comemorar!
juntando irmãos, cunhados e amigo
saboreando uma comida de bom paladar.

na vida, cada ano que passa
buscamos coisas que nos dão prazer
fazemos de tudo com muita graça.

são essas coisas que nos comove
por isso desejo aqui
um feliz sessenta e nove!

A Celso, bom amigo e cunhado!

2009/07/25

Voracidade visceral


a vontade de viver várias vidas
como vozes vistas a voar
e variadas vezes
em verdadeiras viagens.

vive a varíola, as varizes
a varicela e a ventania,
das vísceras viscosas
na vida dos viventes.

e varre com ventos violentos
as vaidades e veleidades vãs,
variando nas vontades
vossos vistosos vultos.

o que vale na vida?
vale a vontade viajar na vila
com vossas valas, vossos vestíbulos
e vossas varandas.

mas o velho verbo vive,
na vácuo da vulgata do vernáculo.
a voracidade visceral
da vontade de viver!

2009/07/17

G, o ponto


gosto grátis
gasta gás
em gamelas
de guloseimas em gotas.

gentis gestos
garimpando, graciosa gruta,
genuínas gotículas de gozo
da garota no ponto G.

a grande glande genital
garante guerras gerais
na garganta germinal
de gametas geminais.

os gêmeos gemem,
as gralhas gralham.
gente gosta do grito.
gato e gata gastam grunhido

e gradativamente,
generosas gargalhadas
garantem o gesto
das gurias gravidas!

2009/06/30

Desilusão


não adianta bater na minha porta

que eu não vou abrir.
não vou, não abro não.

fiz de você uma rainha
e você me esnobou.
bateu com a força
no meu coração
fez dele um pandeiro
que até as platinelas choraram.

não quero mais.
meu coração não é de couro de gato
e você bateu nele sem dó nem piedade.
e agora que você está só.
me procura falando de amor.
cansei de ser usado para o seu deleite.

não adianta bater na minha porta
que eu não vou abrir
não vou, não abro não.

2009/06/11

Particípio passado


é muito difícil pensar na velhice
quando se é jovem.
quando a idade avança
o irremediável se apresenta.
não dá mais para procrastinar.
envelheci.

tive poucos amigos
que me ajudaram nessa tarefa.
o espelho foi um. arrumou
um jeito de me enganar.
sempre me mostrava o todo
não me permitia os detalhes.

aquela ruga nova não era notada
porque vinha junto com as outras.
aquele olhar triste, hoje
só era mais triste que ontem
e ontem eu nem percebi.

minhas pernas, meus olhos e ouvidos,
todos ficaram mais tímidos
e se acanharam em me acompanhar,
como no tempo da juventude.
os dias passam como sempre!

os pés, já não caminham como antes.
passado descompassado.
confusão de ontem
como há muito tempo atrás.
não sei!
já não é a mesma coisa!

2009/06/10

Cenário


sala grande e vazia
mesa no canto, um sofá.
na mesa restos de comida às moscas.
nenhum quadro na parede.
o sol entra pela nesga da janela.
portas abertas dão para os quartos
vazios, completamente nus.
banheiro e cozinha também.
nenhum som.
vem do lado de fora, a luz.
deitado no chão da sala jaz.
o corpo sem vida. faz dias.
o cheiro fétido invadia toda a casa.
no bilhete a despedida
de um amor que partiu.
partira-lhe o coração.
abandonado viveu.
abandnado morreu.

2009/06/09

Sonho e prazer

por camila maldonado

se a noite de repente acordo,
adoro abrir seu pijama.
com meus dedos, percorrer todo o seu corpo
e me sentir senhora de cada centímetro.
me apodero bem devagar.
invado sua alma,
percorro o labirinto de seus pelos.
como uma ameba disforme
transformo-me no seu ser.
estou nua, despida de preconceito.
tomo posse de tudo.
posso amá-lo sem pudor,
sentindo em mim todo calor de seu corpo.
arfando num vai e vem de prazer
vou às nuvens, à estratosfera.
quero gozar, mas como uma ordem
espero o seu ritmo,
acompanho o seu corpo vibrando no meu
num momento de prazer e volúpia.
como uma explosão chegamos ao orgasmo.
juntos, nossos líquidos se misturam
deixando no ar um único aroma.
volto a dormir.
quando acordo e vejo-o dormindo ainda,
docemente, tranqüilo e sereno.
sinto-o ainda dentro de mim.
com a sensação de que
tudo não passou de um sonho

2009/06/02

Acordei chuva


cobri o céu com um manto de nuvem
no ensolarado dia de outono
só pra te molhar.
transformar as suas vestes
numa pele do seu corpo.
eu chuva, sua roupa e o seu
corpo apareceríamos nus.
encharcaria seu cerne,
seu intimo.
seu ser
seria.

2009/04/11

Pintura de parede

na parede pendida,
para portar pintura
ou pichação.
parecer painel ou portal.

para praticar a piedade
purificando a parte pudica.
pintaria por puro prazer,
parte prima da puritana.

poderia produzir uma pintura pobre,
porém pintaria o púbis.
pelos pequenos parecendo prisma,
perto do ponto principal.

percorreria pois,
peitinhos pontiagudos,
pedindo prudência
pela permissão.

posteriormente poria pros pés
a palidez pélvica perdida.
pequenos pontos pretos
produziriam piadas picantes.

parolas, preces e pecaditos
partidas das pessoas
poriam panos pífios
para pequenos prantos.

pobre pirralha!
planejava portar paisagem,
porem passou
para pintura de parede!

pobre pirralha...!


2009/04/04

2009/04/01

uma palavra


havia uma palavra a ser dita.
havia uma palavra perdida.
havia uma palavra proscrita.
havia uma palavra maldita.
havia uma palavra contida.
havia uma palavra
uma única palavra
havia.

há via...
uma palavra
que se extravia
e fica perdida.
contudo pedia,
queria ser dita.
para ser vida,
ser útil, pudera...


útil pudera!
apenas isso!

2009/03/29

A dor e a espinha


a idade quando avança
leva da gente a esperança.
de na velhice encontrar
uma saúde exemplar.

a infância nem se dá conta,
e na juventude esbanja,
o adulto que no corpo apronta
vira idoso murcho como esponja.

a dor é causada pela ruína:
torácica, lombar, pélvica ou cervical;
do material fibroso e gelatina
no disco intervertebral.

a coluna é a espinha vertebral
para sustentar o resto do esqueleto
tem um canal que repleto
do tutano, a medula espinhal,

dos forames intervertebrais
saem nervos nas aberturas laterais.
lordose, cifose, cervical, lombar
e cifose sacrococcígea, o mal estar.

na lombar por cinco vértebras
em pares, as raízes nervosas espinhais
o forâmen lateral pinçado
provocado pelas hérnias nos discos locais.

os métodos conservadores
deve sempre procurar
fisioterapia, rpg e pilates,
acupuntura, hidroterapia e florais de barr

quando nada disso der resultado
o ortopedista ira indicar:
procure um neurocirurgião
que só ele pode lhe curar.

o medico vai pedir então,
ressonância magnética e raio x
e indicar a cirurgia com razão
para aliviar o infeliz

aos que tem instabilidade vertebral
o fixador dinâmico é a indicação,
colocado no espaço interespinhoso
vai suprimir a mobilidade da articulação

reduz as tensões nas articulações posteriores,
para prevenir e reduzir a dor lombar.
é uma técnica minimamente invasiva
restabelecimento rápido e salutar.

se de todo a dor não vai embora
resta apenas o consolo
de que quando a dor persiste
é porque vida, ainda existe!

2009/03/18

CIRURGIA DE COLUNA VERTEBRAL

Aos leitores deste blog

Estarei ausente a partir do dia 21 deste mês por motivo de cirurgia na coluna vertebral lombar.
A cirurgia será realizada no Hospital Espanhol pelo Dr. Antônio Ribas.
Grande abraço de Rogério

2009/02/23

Soneto da última hora

quão egoísta é o poeta,
que fala das dores do seu coração,
sentidas pela falta dela
e sem por ela ter tido consideração.

caminhos tortuosos e lúgubres,
trazem lembranças possantes.
amores dos tempos púberes
revivem sentimentos constantes.

ah, como dói ouvir um não!
onde o sim foi muito pedido
e nem se quer abriu-lhe a mão!

ela partiu com o coração ferido.
ele ficou com o coração magoado.
e dela o seu ultimo som: querido!

2009/02/08

Máscaras

Por Selma Monteiro Pereira

Um rosto mascara,
em um sorriso perene,
a dor de existir.
Oculta nos gestos
negados de carinho.
Nos músculos contraídos, doloridos,encolhidos.
Uma tensão aprisiona os quereres.
O caminhar pesado torna maior
as distâncias espaciais e afetivas.
Já não saboreia o pão - engole-o .
O vinho desce acre.
Os pés se atropelam.
O chão cresce.
Vem ao seu encontro.
Um aconchego .
A chuva cai
Levando seus pesadelos.
Uma enxurrada acolhe
seus fantasmas.
Apenas inspira e expira.
Uma lágrima escorre
confundindo-se com as gotas
da chuva.Seu corpo,já não tão rijo, entrega-se ao sono.

2009/02/06

Ciúme

Félix tinha um ciúme doentio de Carolina, com quem se casou depois de cinco anos de namoro e muitas brigas. Ela, por sua vez, sentia-se injustiçada, pois não merecera, nem um pouco, as difamações proferidas por ele. Nem mesmo quando foi pega em conversas no bar do Arnaldo com Ubaldo, um antigo ex-namorado que não se conformava por tê-la perdido.

Ubaldo escrevia-lhe cartas que nunca foram respondidas e nem lidas, até que resolveu procurar por ela pessoalmente. Descobriu aonde ela trabalhava. Ligou para ela, que decidiu colocar um ponto final naquela história.

Carolina nunca havia estado no bar do Arnaldo que ficava num bairro vizinho ao seu trabalho e nem sabia que Felix era ferquentador assíduo do bar. Aceitou marcar naquele bar porque seus colegas falavam muito dele e sempre teve curiosidade em conhecê-lo.

Felix mal chegou os viu sentados, frente a frente, numa conversa animada, porem não muito descontraída. Apesar do ar formal que eles aparentavam não se conteve. Morrendo de ciúmes sentou-se bem distante e ficou observando-os. Pediu uma dose dupla de conhaque. Tomou quase de uma golada só, enquanto fumava cinco cigarros, acendendo um no outro. Pediu outra dose.

Sentia-se ridículo diante daquele quadro. Não queria ser um impostor. Mas a dor que sentia era muito forte. Ficou pensando numa atitude a tomar. De tão absorvido, nem percebeu quando Carolina levantou-se e foi embora. Achou que ela havia ido ao banheiro, pois seu companheiro de mesa ainda bebericava e aparentava que permaneceria lá por muito tempo.

Após algum tempo, Ubaldo percebeu que Felix o olhava com insistência. A partir daí foi inevitável que se entreolhassem por um longo tempo. Felix tomou a iniciativa e foi até a mesa de Ubaldo.

- Posso? Fazendo menção de sentar-se.

- Faça o favor! Respondeu por cortesia.

- Felix é o meu nome. Disse enquanto se sentava no lugar que antes era de Carolina.

- Ah! O marido de Carolina. Imagino!

Felix ficou surpreso com a resposta certeira e olhava dentro dos olhos de Ubaldo. Parecia querer buscar informações que não o surpreendesse mais e perguntou:

- E você...?

- Ubaldo. Ex-namorado de Carolina. Ela acabou de sair. Namorei-a no tempo de colegial até quando ela já estava na faculdade. Éramos namorados, amigos e companheiros. De tanto andarmos juntos, um quase adivinhava o que o outro pensava ou sentia. Éramos unha e carne. Grudadinhos. Eu sempre fui muito ciumento. Era a única coisa que destoava no casal. Eu não me dava conta da maravilha de pessoa que ela era.

Felix ouvia-o com atenção e silêncio. Revirava a memória. Já ouvira falar dele, mas não encontrava nenhuma conexão com nenhum ciumento entre os ex-namorados de Carolina. Ubaldo continuou:

- Carolina estava prestes a se formar e tinha que apresentar um projeto que seria feito na casa de Jurandir, juntamente com mais dois colegas. Ela estava tão entusiasmada que repetia o nome de Jurandir constantemente. Isso me deixava enlouquecido. Um dia fui buscá-la para sair e ela disse que não poderia, pois iria à casa de Jurandir. Eu abri a mão direita e a estalei com os cinco dedos abertos em seu rosto. Ela caiu sentada na cadeira. Eu já ia dar um outro tapa aproveitando a volta da mão quando percebi em seus olhos um brilho diferente. Não eram lágrimas de dor física. Era uma dor que eu não conhecia. Eu encolhi a mão envergonhado. Naquele instante perdia-a para sempre. Ela não disse uma palavra, apenas abaixou a cabeça e esperou que eu desaparecesse da sua vista. Só depois é que fiquei sabendo que Jurandir era uma mulher e não um homem. Desde então eu nunca mais a vi. Somente hoje. Uma linda mulher!

Felix olha Ubaldo com pena e admiração. O que era infamiliar se tornava familiar. Afinal há pouco tempo atrás não se conheciam e ele já abria o seu coração. Ubaldo continuou:

- Durante muitos anos eu procurei desesperadamente por ela. Eu queria, pelo menos, pedir-lhe perdão. Não sabia mais o que fazer para encontrá-la. Cheguei a pensar que ela havia morrido, ou mudado de cidade, de estado ou de país. Finalmente encontrei, por acaso, com Carlos que era um dos colegas do projeto. Ele também não a via mais, desde o final da faculdade, mas soube por outros colegas aonde ela trabalhava. Inclusive me falou que ela estava casada. Construí muitas fantasias. Numa delas eu jurava que mataria o seu marido no dia que o encontrasse.

Felix o olhava-o agora com espanto. Não sentiu medo. Enfim há pouco tempo ele também nutria por Ubaldo a mesma fantasia. A sua franqueza o comoveu. Aqueles dois homens que não se conheciam estavam ali, frente a frente, unidos pelas mesmas paixões, sentimentos e fantasias.

Ubaldo falou sobre as cartas que escrevera e que nunca foram respondidas. Falou das ligações telefônicas que também não foram atendidas, até que Carolina topou aquele encontro para por um ponto final naquela história e para dizer que já o havia perdoado. Aproveitou para dizer, a Felix, o quanto Carolina o amava e o medo que ela tinha de perdê-lo por causa dos seus ciúmes.

Felix percebeu que colocava em risco uma relação que lhe era muito cara e ficou de cabeça baixa, pensativo e envergonhado, bebericando o conhaque. Mais uma vez não percebeu. Agora foi Ubaldo quem se levantou e foi embora.

Felix não sabia. Mas aquela mesa fora testemunha de um triangulo amoroso. Por alguns instantes todos os vértices dele estiveram ali, dois a dois, desfilando os seus amores e as suas paixões.

2009/01/08

O livro

Aquela criatura singela,
Que ali na estante mora,
Enlaça nossas vistas nela,
Para ser pega a qualquer hora.

É feita de tinta e papel.
Muitas vezes leva costura,
Com texto e textura a granel.
E é vista com muita mesura.

Poesia, literatura ou arte.
Ciência e conceituação.
Tem um autor em cada parte,
Que descreve a sua intenção.

Para consulta ou conhecimento,
Sentir o seu cheiro com imaginação.
Pegá-la é preciso, por merecimento.
Lágrimas de choro molham a paginação.

Na estante. A vitrina da alma.
Fica esquecida há muito, silente.
O prazer de ler com calma,
Acorda-a e a faz presente.

Cada livro que tem em uma história.
Ganha carícias de mãos e de olhos.
Bom ou ruim é uma memória.
Guarda em si, seus repertórios.

Nada substitui este prazer, enlevamento.
Nem a internet, com avidez e velocidade,
Faz do e-book tão bom instrumento,
Que roube do livro a sua felicidade.

2009/01/07

Devaneios


Por Selma Monteiro Pereira

A gente sente o cheiro.
Acaricia sua aspereza.
Dorme com ele entre as mãos.
Às vezes, esquecido
no tempo, de repente,
desperta uma lembrança.
E, lá, estamos juntos
vivendo suas histórias.
Tão iguais as nossas,
simples ou complexas,
Marias ou Capitus.
A emoção, às vezes,
molha nossas histórias.
Nada substitui este
Envolvimento,
quase viceral.
Presente, passado e
futuro convivem,
num momento único:
a comunhão de
sonhos, devaneios
e realidades tão,
insuportavelmente,
únicas e universais.

2009/01/06

Casamento remédio

Casamento devia
ter data de validade.
Trazer bula escrita
em letra grande de verdade.

Vir numa caixa grande
com cartelas individualizadas.
De amor, felicidade, participação.
Medo, horror preocupação.

Em tarja vermelha, azul ou preta,
só devia ser adquirido com receita.
Ser guardado longe das crianças
e de animais de estimação.

Não é remédio pra deixar ninguém feliz!
Mas devia vir com uma recomendação:
Persistindo os sintomas,
procure um padre ou um juiz!

2009/01/05

No primeiro dia do ano:
Garçom. Tem leite de gazela?
Tem leite de ursa?
E leite de aliá, tem?

Não, só de vaca.

Então trás um a cerveja mesmo.
Eu vou beber só esse restinho de ano!
Depois, só no ano que vem!

2009/01/04

Para minha mãe

Por Paulo Cordeiro


Ser poeta

É um triste ser

Ser poeta

É escrever

A vida

Pros outros

Ler.

2009/01/03

Eu/você - uma quimera




quisera eu/mulher acordasse.
fosse você e no corpo sentisse,
o que sentia quando amor fazia.
a dor que perdurava, horas e dia.

quisera você/homem acordasse.
sentisse o que senti e a dor ficasse.
trocássemos de lugar então.
você amaria o sexo e eu a paixão.

se eu/você acordasse.
se um do outro tivesse ciência.
e o dolorido corpo vibrasse.

de repente viria o pranto.
e imploraria clemência.
por ter amado tanto.

2009/01/01

Declaração de amor

Mais de trinta anos de convivência,
Chopes, cervejas e experiência,
Maravilhosos filhos como convém,
Muitas dívidas e dúvidas também.

Viagens algumas e passeios poucos vivemos.
Sinceridade e lealdade sempre queremos.
Mas se nossa vida sempre foi comum,
Com algumas concessões fui tolerante, como nenhum.

Sou humano, mesmo sem em Deus acreditar.
Correto dentro das minhas possibilidades.
Amigo, cúmplice e companheiro exemplar.

Envelheci com sabedoria e paciência,
Com as dores do corpo e os aís da alma.
Declaro, pois, todo o meu amor com consciência.

2008/12/30

Feliz Ano Novo!

Eu mudo de ano. O ano muda de mim.
Hoje eu mudo esse ano.
Depois ele, no meu aniversário.
E já faz isso há muito tempo!


Nem sempre estive presente. É verdade!
Mas vi acontecer sessenta e cinco vezes.
Alguém nasce. Alguém morre.
Trezentos e sessenta e cinco dias, doze meses.


Os anos da infância foram marcantes.
Lembram boas passagens.
Da Suzana, com quem tomava banho na banheira.
Ah! Traquinagens infantis!


Na juventude, os anos dourados!
Bailes, praias, passeios, namoradas.
Para o adulto, formação profissional, trabalho.
Família e filhos.


Alguns anos ganhei.
Outros perdi.
Anos para guardar, para esquecer
Para viver. Envelhecer.


Por isso aprendi.
De tudo o que mais me comove.
É poder desejar a você.
Um feliz dois mil e nove!

2008/12/28

Com os dedos

No inicio não foi muito fácil.
Eu não sabia como se fazia.
Comecei numa ponta e fui até a outra.
Crescia e diminuía o tempo todo.

Fui aprendendo...

Entrava e saia... da linha.

Se mais forte fazia, maior ficava,
doía e gemia.

Todo dia repetia, repetia e repetia.
Ora sozinho,
ora acompanhado,
com o tempo ficava cada vez melhor.

Até hoje uso os dedos,
mas não faço mais garranchos.

Apenas escrevo...

No computador.

2008/12/25

Riso


Rogério Silva

rio da minha tristeza,
da minha covardia,
da esperança minha, rio.

rio da minha pobreza,
da minha natureza,
da vaidade minha, rio.

rio da minha felicidade,
do meu corpo,
da amizade minha, rio.

rio da minha desgraça,
da minha vitória,
da tolerância minha, rio.

rio da minha nobreza,
da minha sabedoria,
do envelhecimento meu, rio.

rio da minha paixão,
do meu amor,
da tolice minha, rio.

rio da minha coragem,
da minha derrota,
da descrença minha, rio.

só não rio da minha vida.
porque essa já ri de mim!

2008/12/24

O segredo

Por Rogério Silva

segredo todo mundo tem
e quem tem não conta a ninguém.
se contar pra alguém.
ele não vale vintém.

desde criança
se faz aliança
e com ela a esperança
a amizade alcança.

na juventude é o esmero.
fantasias, espero.
inquietação. amor.
luxuria e fulgor.

maturidade é a do adulto
que trás como um indulto.
transmite a quem tem ouvido
en passent, quase fugido.

na velhice a sabedoria,
das historias infindáveis,
o que se soube desde um dia
e se guardou a sete chaves.

mas quem tem língua de trapo
e fala da vida alheia,
faz do segredo um fiapo
e a todo mundo chateia.

sempre há algo inconfessável,
há um sonho inalcançável,
há um arrependimento irreversível,
um amor inesquecível.

portanto meu caro amigo,
aquilo que trago comigo,
guardo no fundo do peito,
mesmo que seja isso um defeito.

pois vou lhe contar um segredo.
guarde-o como convém.
quem escreveu esse poema,
não foi nenhum poeta, foi alguém!

2008/12/21

Medo de escuro

Por Rogério Silva


você chegou.
entrou e se aninhou.
se deitou, fez carinho, fez amor.
saiu. deixou a porta aberta.
sem se quer disser adeus!

durante muito tempo
fui lá fora lhe procurar.
não a encontrei
e continuei a procurar.

enfim achei.
entrou e se aninhou.
se deitou, fez carinho, fez amor.
ficou. deixou a porta aberta.
desta vez quer ficar!

diz que me ama, que me quer.
também a amo, mas digo que não quero.
o que há em mim?
que faz o amor tão escorregadio?

a noite, no sonho.
entrou e se aninhou.
se deitou, fez carinho, fez amor.
e.... a porta aberta.
outra vez!? outra vez!

ah! se eu pudesse dizer, gritar...
eu a amo!
mas me calo e sofro.

tenho tanto medo de escuro!...

2008/12/16

Se fosse macaco dava música, mas preguiça!

Rogério Silva

Na minha mocidade era muito comum passear na praçinha da igreja matriz. Dizia-se rodar a praça. Ritual que se repetia todos os dias das férias. Como não havia horário especial de verão, dezenove horas já estava ficando escuro. Aos pares ou individualmente, os rapazes e as moças solteiros surgiam para fazer o seu trotoi. Uns giravam no sentido horário, enquanto outros giravam no sentido inverso. Pipoqueiros e vendedores de guloseimas compunham o cenário. Muitos casamentos tiveram origem nesse ritual. Era comum um componente do casal adotar o nome do parceiro. Ficava assim: Geraldo da Glorinha, ou Mariazinha do Juvenal. Esse uso de tão comum, fazia com que se acrescentasse um nome ao outro como Miguel da Nadir do Clodoaldo, mesmo quando a Nadir já não estivesse mais com Clodoaldo.

Eu mesmo tive várias namoradas que eram apresentadas assim. A Lurdinha foi o caso mais extravagante que eu conheci. De tão namoradeira ficou conhecida como Lurdinha do Jorginho, do Canela, do Sandoval. E o interessante é que, por muito tempo ela ficou conhecida assim na cidade. Mesmo depois de se casar com Frbrisio, um estudante de direito que se encantou por ela numas férias passadas na cidade, ela não perdeu o nome dos últimos namorados. O meu nome já estava tão longe que já não era mais mencionado. Hoje ela é só Lurdinha do Fabrisio.

Nas manhãs ensolaradas, a praçinha era o ponto de encontro das mamães com as suas criancinhas. Os homens de negócios reuniam-se à tarde e os casais ao entardecer e à noite. Mas é também o lugar onde moram alguns animais. O bicho preguiça era sempre visto no alto de alguma árvore onde ficava no mesmo lugar quase o dia inteiro. O jacu surgia ao entardecer e o tucano pela manhã, bem cedinho. Além de sabiás, saíras, tico-tico, e outros pássaros. Ninguém incomodava os bichos e eles também não perturbavam os passantes, a não serem os pombos que, lá do alto, largavam os seus petardos na cabeça ou blusa de algum incauto.

Cesar era meu companheiro de traquinagem pela praça, mas havia uma coisa que eu gostava de fazer sozinho. Ficar na espreita observando um certo casal que aproveitava o cair da tarde para fazer bolinagem num banco que eles descobriram. Ficava um pouco mais escondido dos passantes habituais. Eu já vinha observando-os e fugia dos companheiros nessa hora. Ficava bem escondidinho numa moita e em profundo silêncio para ver os afagos acalorados do casal. Muitas vezes eu os vi transando enquanto eu me masturbava atrás da moita. La no alto ficava o preguiça bronhando na árvore. Não sei se excitado com as investidas do jovem casal. Mas o fato é que muitas vezes eu o vi naquele lugar, justo naquela hora em que eu estava no auje da minha função de voyeur.

Numa dessas noitinhas de verão, o casal estava lá em franca senvergonhagem e eu estrategicamente posicionado com o membro em riste e com as calças arriadas. Sem perceber, o bicho preguiça aproximou e agarrou-me pelas pernas, como se quisesse subir e eu fosse árvore. Ele agarrou-me com força quase enfiando as suas unhas afiadas em minha carne. Um de seus dedos pegou o meu pênis junto com meus dedos. A dor que eu sentia era tão forte que eu não me importaria em denunciar a minha presença exercendo o ménage a troi clandestino sem consentimento do casal. O seu corpo era tão quente que parecia estar com febre e exalava um cheiro fétido. Não sei por quanto tempo eu fiquei hirto fazendo caretas até que ele resolveu ir embora como veio. Só então foi que eu reparei a presença do casal a minha frente. Olhavam-me com um misto de pena, pilhéria e raiva por terem sido pegos em flagrante na sua intimidade. Nada fizeram, apenas afastaram-se dali.

Eu nunca mais fui lá. Soube, mais tarde, que Cesar e outros dois amigos passaram a freqüentar aquele local. Já eram outros casais que faziam as mesmas coisas. Do preguiça, nunca mais se ouviu falar.

Passados alguns anos, já na condição de professor universitário eu vim para o Rio de Janeiro, desenvolver a minha vida pessoal e profissional. Certo dia eu revi aquele casal. Casados desde aquela época. Como eu soube depois, tinham um filho que já era um compositor famoso de música popular brasileira. Nesse dia eu proferia uma palestra num congresso de economia e os vi na platéia. Confesso que fiquei incomodado com a presença deles, mas eles não demonstram nenhuma lembrança daquele acontecimento. Talvez até nem se lembrassem de mim, o que me deixou um pouco mais a vontade. Ao final da palestra não os vi entre aqueles que ficam mais tempo para dizer alguma coisa ou cumprimentar o palestrante. Tanto melhor, pois eu sentiria mais vergonha agora do que naquele dia em que eu ainda era jovem e um pouco impetuoso.

Cheguei até a fantasiar que se seu filho conhecesse aquela historia, quem sabe, poderia compor uma canção. Depois pensei: se fosse macaco daria música, mas preguiça!

2008/12/07

Sentença de servidão

Por Rogério Silva

Trata-se de resposta ao despacho anterior, o presente expediente que redijo com minha máquina de escrever pessoal. Minha santa e providencial Olivetti Lettera 82, portátil. Talvez até ela se orgulhe de colaborar gratuitamente com o serviço público brasileiro.

O que ela talvez não saiba, na sua limitada consciência de objeto sem anima, é que talvez esteja aqui lavrando sua sentença de servidão. Aqui provavelmente ela se efetiva no serviço público voluntário gratuito, para não dizer escravo. Este expediente trata, dentre outras reduções, de reduzir de duas para uma unidade a compra prevista no capitulo "máquina de escrever". E uma máquina só não vai dar conta de tanto serviço. Sobretudo se for mesmo uma máquina burocrática, que pegue as nove e largue as cinco, ao contrário da minha que é pau pra toda a hora. Não será usada só por mim, mas também por alguém que segue esse horário. De qualquer modo, trato de dizer à minha Lettera que já seria grande coisa se um dia aparecer mesmo esta escoteira companheira. Elas duas terão de dividir o trabalho. Pois estou há muitas noites e dias fazendo tudo o que posso para ter aqui uma máquina de escrever funcionária pública. Registrada, carimbada e fiscalizada. Estou pedindo verbalmente, oficiando, requerendo, cumprindo determinações e nada.

Ela não deixou de notar que não é só máquina de escrever que falta aqui. Desde que chegou tem padecido de uma solidão de ermitã. Olha para os lados, coitada, e não vê qualquer companheiro com anima ou sem anima, alem de mim. E nem sequer tem a companhia desse ser hibrido, o telefone, que apesar de ser portador de vozes humanas é cheio de vontades e só fala quando quer e bem entende. Ela sabe apenas que, usado pelos funcionários que cuidam da obra deste edifício, existe um. Mas daqui pra lá são quase cem metros. Por mais alto que ele grite não poderá superar as muitas paredes do prédio e a ruidosa presença dos ônibus que passam pela rua para dar um pouco de calor inumano à pobre Olivetti.

Será que Deus, além de brasileiro, funcionário público possui também o único cargo mais elevado da repartição? Porque eu preciso me pegar com alguém para a salvação do Teatro Machado de Assis. Porque tudo que estava pedido e parcimoniosamente previsto no expediente inaugural deste processo eram e continuam indispensáveis para o teatro funcionar. Qualquer redução feita, o que se estará propondo é a abertura de um hospital sem leitos, sem enfermeiros, ou de uma escola sem carteiras e professores

Me pedem que atenda a um despacho que chega a mim rodeado de mistério. Não falo de qualquer dificuldade de entender o sentido profundo de um texto cifrado. Falo de um puro e simples “conforme entendimentos”. Entendimentos dos quais fui privado.

Cheio da boa vontade de ver até onde é possível ir para a salvação das almas públicas, ou das almas privadas temporariamente públicas, peguei o documento original e abreviei, sobretudo, o prazo dos serviços, que são indispensáveis contratarem. E esta é a principal redução que consegui fazer no total do valor a ser gasto. Valor, por sinal, fixado não por mim, mas por quem agora me pede que reduza.

Quero dar um exemplo do que significa esta redução de prazos. O Teatro tem cinco sistemas de elevadores: o elevador do fosso da orquestra, o monta-carga que leva do palco ao porão, o elevador da cortina corta-fogo, o sistema de suspensão das varas do urdimento e o elevador que leva do palco aos camarins. Todos estes sistemas dependem de manutenção especializada e a própria entrega dos serviços de instalação está condicionada à contratação desta manutenção. Ao reduzir de seis ou mais meses para três, no máximo quatro meses, o prazo dos contratos de manutenção, é preciso estar consciente de que é necessário imediatamente prorrogar estes contratos, sob pena de abrir o teatro para fechar em seguida.

Posso dar uma pequena idéia do que significa este atraso. Até a pouco trabalhei em lugares diferentes do teatro: o foyer, algum corredor, um camarim inacabado, no meio da sujeira própria da obra, poeira, pedaços de fios, madeiras, chão forrado de plástico, etc. Mas há três semanas está quase pronta a sala de administração e pude me transferir para lá. Como não tem aqui nenhum funcionário de limpeza, nenhuma vassoura, e apesar de eu me encarregar de esvaziar cinzeiros, jogar fora garrafas pet, evitar papéis, etc.

Talvez existam outras providências que já deveriam ter sido tomadas. Será inteiramente impossível que o teatro funcione sem um sistema de intercomunicação: a cabine de luz, onde fica o operador, está acima da galeria e a ordem mais simples, para começar o espetáculo, por exemplo, não tem como ser transmitida do palco, ou da bilheteria, ou da portaria, ou da administração. O mesmo operador não tem como se comunicar com seu auxiliar, na sala de dimmers, situada no teto acima da platéia. O contra-regra terá que percorrer cinco andares de camarins para convocar os atores num espetáculo de elenco numeroso. A montagem de luz será uma operação de gritos entre o operador, seguidores, iluminador, diretor, todos em lugares diferentes e distantes. Como a com para e instalação de intercomunicadores estão previstas neste expediente não sei que milagre fará com que isso aconteça antes de inaugurar o teatro, se a obra terminar nos próximos trinta, quarenta dias.

Cumprindo o solicitado, encaminho o expediente com as reduções possíveis, na maioria reduções de tempo de contratação de serviços. Além delas, outras pequenas economias, reduzindo a compra de máquinas de escrever de duas para uma, convoca definitivamente esta paciente Olivetti Lettera, em que agora acabo de escrever este despacho, para o trabalho escravo. O que, no Brasil, e apesar da princesa não é novidade.

Diretor do Teatro Machado de Assis

2008/11/09

uma incógnita, uma paixão

Por Camila Maldonado

é verdade! você ainda me amava! eu sei!
para mim, você era alguém encantador!
carinhoso e apaixonado!
nunca antes, nem depois, encontrei igual!
entregou-se totalmente e atirou-se.
imaginou ter asas para voar.
caiu e machucou-se.
mas quem cortou suas asas?

só não percebeu que elas nunca haviam existido.
sofreu muito com isso.
não aceitou a inconstância dos sentimentos.
rebelou-se contra eles,
talvez por ter-se iludido,
talvez por um inexplicável sentimento de repulsão,
ou de abandono, sem carinho.
não sei. uma incógnita!


pensei conhecê-lo. mas qual das suas variantes?
perco-me em explicações que nada me explicam.
tento justificar a sua inércia.
a sua frieza. o seu desinteresse.
ou seria falta de coragem?
desconfio de tudo. de todos. fico tão confusa!
não acredito em mais nada.
dou-me conta que só arranjo justificativas vãs.

não acredito que você seja assim!
por baixo dessa máscara de meu garoto,
existe um menino,
uma criança carente, sem chão, com medo.
quer agarrar-se a qualquer coisa,
em alguém que seja forte.
mas eu nem sou tão forte assim!
sou apenas uma mulher só e apaixonada!


na minha fragilidade sinto você mais forte.
eu sinto mesmo que você me ama.
mas nem mesmo isso você me diz!
você não me dá nenhum sinal!
se pelo menos me pedisse alguma coisa,
se me quisesse de verdade,
se chutasse o balde por mim
e desse uma esperança!... umazinha!... sei lá!...


por que ainda me preocupo com isso?
por que ainda procuro explicações?
não sei! não sei o quanto você se importa,
mas sei o quanto eu me importo.
talvez você me julgue egoísta e presunçosa.
deve estar sofrendo por isso.
e também porque eu não o procuro mais.
mas eu não posso ficar esperando-o.


ainda sou jovem apesar de impetuosa.
gosto de ser mulher e dos prazeres da vida.
procuro um amor de verdade.
um verdadeiro amor só pra mim.
o espelho já me avisou!
falta pouco para mim também.
tenho urgência!
afinal, eu descobri que não sou imortal!

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2008/10/20

Manual de utilização do penis

Por Rogério Silva

O pênis é um instrumento masculino que tem como função urinar e ejacular esperma. O instrumento feminino, chamado de vagina também tem a função de eliminar a urina. Mas a sua outra função é receber o esperma conduzido pelo pênis.

Todo instrumento já vem da fábrica com seu respectivo manual, contendo às discriminações do produto, modo de manuseio e utilização além do certificado de garantia. Mas, por incrível que pareça, o pênis não vem acompanhado de nenhum manual de utilização. A vagina também não. E existem várias razões para isso. A mais provável é que nos primeiros anos da vida do usuário, é a própria fábrica quem cuida deles. Tanto na manutenção da limpeza quanto na utilização. Nessa época os usuários só utilizam esses órgãos para urinar.

Por questões óbvias, vou me ocupar aqui apenas do instrumento masculino. No inicio da puberdade o usuário começa a descobrir as transformações do instrumento e as novas utilizações para aquele que teve o primeiro apelido de pinto. É nessa ocasião que o usuário vai descobrir que para utilizá-lo plenamente ele precisa de outro instrumento. Precisa da vagina. Como ele ainda não foi apresentado formalmente a ela, ele cria um modo próprio de utilização conhecido como punheta. A punheta leva esse nome porque utiliza o punho com seus cinco dedos. Esse método também é conhecido como cinco a um e sofisticadamente como masturbação.

Para essa prática é comum o usuário utilizar revistas masculinas ou outros meios gráficos como forma de excitação. Modernamente a internet tem sido o meio mais procurado. O usuário sente um misto de prazer e horror pelo tamanho que o pênis assume devido à excitação. Um manual nessa hora ajudaria muito, iria ensiná-lo, por exemplo, que o intumescimento se dá pela ingestão de sangue no interior do pênis, nos chamados corpos cavernosos. Como não existe o manual, ele busca informações com os mais velhos que supostamente já passaram por esses momentos.

Histórias, as mais estranhas, são ouvidas sobre o uso da punheta. Tem uma que diz que cresce um fio único de cabelo na palma da mão do usuário e quanto mais ele corta, mais o cabelo cresce. Outra história interessante, é que o uso feito com uma das mãos faria crescer mais o peito daquele lado. Portanto, quem tem um peito maior que o outro, com certeza, utiliza esse método.

Muitos usuários mantém os hábitos da puberdade até idades bastante avançadas. Esses hábitos não são prejudiciais à saúde embora se recomende moderação. Depois de passada essa fase o usuário já está plenamente familiarizado com o instrumento que utilizará em sua totalidade e quase que diariamente. Constituirá família, produzirá filhos, participará de bacanais, terá amantes, fará sodomizações e outras práticas mundanas.

Com o passar do tempo esse instrumento apresentará uma certa decadência e começará a falhar. É quando se ouvirá pela primeira vez a frase: “isso nunca me aconteceu antes!”. É provável que essa frase se repetida mesmo se o usuário mudar de parceira ou parceiro.

Ao longo da vida, o usuário sempre procurou conhecer melhor o seu instrumento. Por falta do manual fornecido pela fábrica ele procurou no especialista o conhecimento que este possui. O especialista pode orientar de forma individual ou coletiva com advertência para as doenças sexualmente transmissíveis (DTS). Uma das mais grave de todas é a AIDS. Nesses casos recomenda-se o uso de uma camisinha. Conhecida como camisa de Vênus, protege tanto o pênis quanto a vagina.

Há casos em que o pênis perde o seu destino sexual devido à falta de prazer do usuário ou devido a alguma anormalidade que o acomete. O envelhecimento também ajuda nesse processo. Além dele a utilização de drogas também. Assim como hábitos desregrados.

O mais incrível é quando o usuário atinge uma idade na qual a funcionalidade fica duvidosa. Não é uma perda total, mas o usuário tem que se haver com as mais estranhas situações. Por exemplo, quando a função urinária fica tão alterada, que o usuário sente vontade de urinar, mas não dá tempo de chegar ao lugar próprio e ele se urina todo. Em outros casos sente vontade de urinar, mas só faz um pouquinho e tem que voltar várias vezes ao banheiro. Após os cinqüenta anos de idade, recomenda-se uma consulta anual ao especialista. Essa consulta é sempre muito delicada para o usuário, pois o especialista precisa introduzir um dedo no instrumento anal do usuário. O que produz um certo desconforto, tanto do ponto de vista corporal quanto social e moral.

Nessa fase da vida, o usuário já utilizou o pênis nos seus modos mais prováveis e a sua mente sempre colaborou. Isso fez com que ele tivesse criado hipoteticamente um manual próprio. Pois toda a vez que via uma usuária do sexo feminino o seu pênis se mostrava pronto para o uso. Por volta do sessenta anos ele continua sendo estimulado mentalmente, mas o instrumento precisa de um aditivo para se mostrar pronto para o uso. Com uma dessas pílulas que existem no mercado, às vezes funciona.

Observação importante: o celibato e a abstinência não são garantias de longa duração para o dito cujo. Por isso, não convém dar ouvidos às recomendações religiosas.

Quando estiver reunido com seus amigos num bar, por exemplo, e passar uma gatinha rebolativa, uma luz acenderá na cabeça do usuário. Certamente ele ficará assanhado, mas o instrumento nem se manifestará. Só então, ele se dará conta de que nunca teve o manual, mas sempre soube usar. Agora, porém, alguém lhe dirá: “não adianta que você tem o instrumento, mas não sabe mais como se usa.”

2008/10/13

Vou só relaxar...

Por Rogério Silva

- Aonde você vai?

- Sei lá, vou sair por ai, pra espairecer. Alberto responde descontraidamente.

- Pra espá-o-quê? Pergunta Matilde sem entender.

- Espairecer, desanuviar. Pra relaxar, entende? Disse-lhe tentando esclarecer.

- Relaxar de que, homem?! Você não tem feito outra coisa nos últimos tempos. Desde que você se aposentou não faz nada, a não ser ficar aí, diante desse maldito computador. Eu não entendo nada dessas coisas. Mas eu só vejo você jogar cartas. Às vezes está lê ou vê um filme. Eu até penso que tem televisão aí no computador. Acrescentou, aparentando alguma indignação.

- Pois é. O computador tem disso mesmo. Você pode jogar, ler, conversar, se atualizar, e se quiser ainda tem um montão de outras coisas que se pode fazer. Disse-lhe numa tentativa de convencê-la a se interessar.

- Aposto que você fica aí é namorando! Às vezes vejo você olhando pra essas mulheres muito bonitas. Acho até que você as conhece? Perguntou sem esconder o seu ciúme.

- Claro que não. É a internet que faz tudo ficar muito público. O que cai na rede roda o mundo todo. Disse ele querendo esclarecer.

- E essas mulheres também? Perguntou já irritada.

- Sim. Daqui a pouco eu volto. Disse ele, já se dirigindo à porta.

- Como assim, daqui a pouco? Perguntou ela, numa tentativa de ganhar tempo para dizer-lhe mais alguma coisa e fazê-lo desistir.

- Eu vou sair, vou só caminhar um pouco. Se eu encontrar alguém, de repente, bato um papo, tomo um chope, sei lá! Depois eu volto! Falou tentando acalmá-la.

- Já sei. Você vai é encontrar com uma dessas sirigaitas. Disse-lhe com uma calma e superioridade de quem tem certeza do que esta fazendo.

- Não, essas meninas não ficam perambulando por aí o dia inteiro. É mais fácil você vê-las na internet do que ao vivo. Se você quer saber eu nunca vi, sequer a Juliana Paes de perto. Nem a Gisele, nem a Flávia Alexandra ou outra celebridade qualquer.

- A Juliana Paes tudo bem, ela é atriz, tem mais o que fazer, mas essas duas aí que você falou com tanta intimidade...

- Tem intimidade, não! To falando da modelo e da atriz! Até logo! Acenou numa nova tentativa de sair.

- Espera aí. Na volta você podia passar no mercado e comprar...

- Não vai dar, eu vou pro outro lado. Disse ele interrompendo o pedido.

Ela faz uma nova tentativa.

- Então você passa na farmácia...

- Também não vai dar. Vou só espairecer. Falou com a intenção de amenizar.

- Você ta é de má vontade. O que custa você passar no açougue? Disse Matilde já muito aborrecida.

- Mas você não esta entendendo. Eu só quero me distrair!

- Mais distraído do que você! É impossível! Ela acrescentou com desdém.

- Ta bom! Você tem razão, mas eu preciso sair. Alberto falou para amainar.

- Reparou que está chovendo? Insistiu ela.

- Pode deixar que eu não sou de papel para desmanchar, nem de pano para encolher! Acrescentou visivelmente irritado.

- Então ta! Mas você vai perder! Arriscou numa nova tentativa.

- Perder o que?

- Nada não, xa-pra-lá! Disse colocando dúvidas em sua cabeça, enquanto olhava para as unhas dos dedos como se estivesse reparando a pintura.

Desconfiado de que sua mulher poderia armar alguma coisa de mal-gosto, que ele pudesse se arrepender depois, perguntou:

- Fala mulher, o que é que eu vou perder?


- Um jogaço! O mengão contra o fogão!

- Tá maluca, mulher? Eu sou vascaíno! Disse ele, não se contendo mais a essa altura.

- Ah é! Eu me confundi! Ué se sentou, por quê? Não vai mais sair?

- Ia, mas desisti.

- Eeemm!? Insistiu incrédula.

- Você me convenceu. Espairecer, desanuviar, relaxar, ficar diante do computador, saber das noticias, namorar a Gisele ou a Flávia Alexandra, bater papo com alguém, tomar um chope, passar no mercado, na farmácia ou no açougue, já é muita coisa para um só dia e ainda por cima ter que assistir o mengão contra o fogão!? Ufa! Faça-me o favor! Eu vou é dormir!

2008/09/26

Quero simplesmente parar de viver, meu comentário

Por Rogério Silva


Cheguei a pensar em apagar esse poema do blog, pois causei muita inquietação nas pessoas que me procuraram por e-mail. Preocupadas com as suas próprias questões religiosas que, afinal de contas, são as suas razões de se viver. Acreditaram que eu estivesse passando por um mau momento e que isso representasse, em mim, um desejo de morte iminente.

Não se pensou na possibilidade de um estilo literário e, por isso mesmo, não se utilizou o espaço de comentário para as suas críticas, ou questões. Entâo eu busco em Carlos Drummond de Andrade um alento para uma escrita tão audaciosa.

O modernismo e estilo de Drummond levaram-no, com sua linguagem em diferentes ritmos, à popularização em um país onde se lê pouco. No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho ou E agora, José?/ A festa acabou/ a luz apagou/ o povo sumiu são versos que entraram para a História como ditos populares. Mantem-se presente no linguajar popular de forma excepcionalmente bela: Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução.

A morte, assim como o humor, foi uma constante na obra de Drummond:

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

preferiram (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

Misturou o amor e a doença que levou sua filha com seu típico humor em Versos Negros (mas nem tanto): O amor, então, é a grande solução?/ Amor, fonte de vida... Essa é que não./ Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Se viver é preciso, morrer também é preciso.

2008/09/20

Quero simplesmente parar de viver

Por Rogerio Silva

Quero morrer.
Isso mesmo, morrer de verdade, virar pó!
Não, não se trata de suicídio.
Quero simplesmente parar de viver,
parar de comer, de respirar, de evacuar, de urinar.
Já disse! Não quero o suicídio!
Sou covarde demais! Para isso é preciso ter muita coragem!
Ter coragem é ação, é vida.
Só quero virar pedra. Ficar frio, sem ação nem reação.

É preciso desligar a consciência.
Isso eu posso fazer, sei que posso.
Nunca fiz, é verdade, mas sei que posso.
Pensar é uma porta aberta.
Aberta para o desespero, para o amor.
Para qualquer manifestação de vida.
Posso morrer com dignidade. Morrer e pronto!
Aqui, sentado em silêncio, apagar como uma vela,
cuja chama já consumiu toda a cera.

Se me virem aqui sentado, frio, sem vida.
Ninguém saberá que eu mesmo quis morrer.
Todos saberão simplesmente que morri.
Para aliviar os seus próprios espíritos acharão
Que morri de frio, ou de fome, ou de tristeza.
Alguém poderá até pensar que não teve nada a ver com isso.
Ou sentirá remorso por não ter me prestado uma ajuda.
Achará que se eu o tivesse procurado,
Teria feito isso ou aquilo!

Ao morrer eu levarei apenas uma certeza.
Vivi por mim e para mim.
Fui senhor em minha morada.
Tornei-me no que fui. Fui um herói de mim mesmo
e ninguém teve nada com isso.
Sabe por quê? Porque fugi ao censo comum.
Não procurei a salvação,
Não quis a vida eterna.
Na incógnita em que vivi, morri.

2008/09/07

Encontros desencontrados

Por Rogirio Silva


aceite um trago.
beba comigo.
embriaguemo-nos.
amanhã na ressaca
sentiremos a mesma coisa.
parecerá que sempre
fomos iguais.

garçom! mais dois.

em silêncio me calo,
em risos me falo.
distraído sou tímido,
alegre sou outro.
no sonho, dormindo
a vertigem me tomba.
acordo sobressaltado
traído pelo desejo.
atento sou lúcido.
posso sentir
as batidas desafinadas no meu peito,
a respiração profunda! ofegante!
caminhando me canso
e o suor me abate.
os pés fincam no chão,
marcam os meus passos. descompassados
encontros desencontrados
nunca retorna ao mesmo lugar.


tinha tanta coisa pra dizer...
coisas que ficaram na estrada.
não me vêem à lembrança.
idas sem volta.
em silêncio me calo,
em risos me falo.
acordo sobressaltado
traído pelo desejo.

garçom! mais dois...

2008/09/04

vontade de ser ninho, ou coisa assim
que te abrigasse contra tudo o que conspira sobre ti.
vontade de ser ninho ser criança
e dar-te todos os brinquedos importantes:
a boneca que fala,
o trenzinho de fumaça e apito,
o caleidoscópio, onde multiplicarias
todas as formas necessárias ao seu encanto.
vontade de ser ninho, ser criança,

ou talvez tudo aquilo que não fui.

Título e autor por mim desconhecidos.

2008/08/23

Carta de amor

Por Rogério Silva

minha amada,
comecei a escrever.
tudo o que tenho a dizer
está aqui, gravado no meu coração.
eu sei todas as palavras,
todos os sentimentos.
meu corpo também.
ele se agita.

as mãos ficam trêmulas.
um suor frio escorre pela testa,
mistura-se às lágrimas.
pingam na folha. borram tudo.
as mãos garrancheiam.
já é a terceira folha e não saio deste ponto.
quero dizer tudo. tudo não, uma parte.
não tenho tantas folhas para tudo.

como é mesmo que se diz?
que se sente só de ouvir o seu nome?
a lembrança do encanto, do contato.
o desejo de estar junto, de ser um.
carta de amor é assim.
tem um quê de ridículo.
pieguice e frivolidade.
reclamações também tem.

puxa! você me deu bolo.
fiquei esperando na chuva.
nem ligou para o perfume que eu te dei.
não lembrou nem do meu aniversário!
as letras pioram novamente.
ficam maiores. parecem gritar.
a testa seca. a caneta quase corta o papel.
sentimento estranho! tão forte! tão vibrante!

não vou rasgar essa folha, vou até o fim.
assim é melhor. sinto-me forte.
posso enfrentar o que vem.
falar de mim, além da vivência.
experimentar a dúvida.
a incerteza.
a sua incerteza.
volto a suar, palpitar, lacrimejar.

não adianta. se eu escrever, se eu cantar,
se gritar ou dançar. não importa o que eu faça.
só o que ficar no papel será
a única testemunha desse instante.
só você, papel,
estará entre nós.
fale então por mim. diga-lhe.
eu a amo! muito!

2008/08/04

Dia dos pais

Por Rogério Silva

Aos meus queridos filhos,

SONHO DE PAI

Todo segundo domingo de agosto é comemorado o dia dos pais. Dia não consagrado como o dia das mães. Eu sei. O pai não é menos sagrado que a mãe, mas a igreja católica fez da mãe a semelhança da virgem Maria. Enquanto que ao pai foi legado o desígnio da vida e da morte, construção e destruição. A humanidade incorporou os conhecimentos bíblicos e transmitiu, geração a geração, os conceitos morais de família que mais ou menos vigoram nos dias de hoje.

Mas o que é ser pai? Ninguém nunca soube exatamente. Primeiro porque quem perguntou, não quis saber e segundo porque o pai sempre esteve ocupado. Trabalhou o dia inteiro, a vida inteira, para receber o sustento da família. Teve de ser provedor. É verdade que foi preciso trabalhar duro para dar conta desta árdua missão e muitas vezes teve a ajuda da mãe. Mãe que esperou dele provisão; filha que esperou carinho; filho que esperou o exemplo. Sabendo disso, o pai se preparou para dar a cada um o que o que era da sua competência e ainda teve que acompanhar a família nos fins de semana, ao supermercado, à praia, ao parque, ao médico, às festas escolares e tal. Não há folga na missão de pai. Ver, fingir que não vê, ouvir, fingir que não ouve, falar e calar são algumas das tarefas mais difíceis e árduas que o pai tem que cumprir. Não se trata de hipocrisia, mas há dosagens nas medidas de pai. Assim como o metro, o litro e o grau, pai também é uma unidade de medida. Pai, é medida de afeto, de coragem, de virtude e de esperança entre outras.

Hoje eu me considero um pai que já respondeu a quase todas as expectativas da sua função, levando em conta que teve os filhos tão bonitos, perfeitos, inteligentes e dedicados o que facilitou em muito a sua função.

Ao longo de todos estes anos, o dia dos pais têm sido para mim uma certeza de que valeu a pena ter tido um sonho.

Os meus primeiros trinta anos foram de preparação. Era o meu sonho. Realizei pois tive os filhos que mereço. Quase mais trinta anos depois tenho outros sonhos. Quero exercer a psicanálise, ler e escrever.

Estou aposentado. Tenho garantido o ganho da provisão, ler, escrever e psicanalisar ainda estão muito longe da realização.

A minha sorte é ter os filhos que tenho, que amo, venero e admiro por suas qualidades, seus defeitos e realizações pessoais que faz com que cada um traga um devir de subjetividade que me tranqüiliza quanto ao seu porvir neste mundo insólito e violento.

Hoje é dia dos pais. Dia de comemoração. Obrigado por existirem.

Dia dos pais 2002

Outros sonhos, amanhã talvez.

Papai.

2008/07/21

TERMODINÂMICA DO INFERNO

Pergunta feita por um Professor da FATEC - Faculdade de Tecnologia de São Paulo, em sua prova final do curso de maio de 1997.

Este professor é conhecido por fazer perguntas do tipo "Por que os aviões voam?" em suas provas finais.

Sua única questão na prova final de maio de 1997 foi a seguinte:

"O inferno é exotérmico ou endotérmico? Justifique sua resposta com base na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma".

O aluno Sérgio Fonseca escreveu o seguinte: "Primeiramente, postulamos que: se almas existem, então elas devem Ter alguma massa. Se elas têm, então um conjunto de almas também tem massa. Então, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno? Então podemos assumir seguramente que uma vez que uma alma entra no inferno ela nunca mais sai. Por isso não há almas saindo. Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo hoje em dia. Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a elas, você vai para o inferno... Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno. Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno. Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante.

Existem então duas opções:

1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir.

2) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele.

Se nós aceitarmos o que a menina mais gostosa da FATEC me disse no primeiro ano: "só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar". E levando-se em conta que ainda NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações sexuais com ela, então a opção 2 não é verdadeira. Por isso, o inferno, infelizmente, é exotérmico."

O aluno tirou o único 10 na turma.

2008/07/15

Boa Noite

Por Jorge Pereira

Boa noite
Já estou me despedindo
Peço licença aos amigos
Tenho que ir pro meu lar

Chegou a hora
De tomar a saideira
Amanhã é segunda-feira
Tenho que ir trabalhar

Chegou a hora
De tomar a saideira
Amanhã é segunda-feira
Tenho que ir trabalhar

Levo saudades de todos aqui presentes
Dr. Jonas boa gente
Marquinhos que é dono do bar
Rogério, Renato e Paulinho
Guardador e o Edinho
O grupo espetacular.
Seu Nônô que hoje não está presente
mas no coração da gente ele não pode faltar

Foi Deus que botou no meu caminho
Amigos, colegas, vizinhos
Que se encontram nesse bar

Foi Deus que botou no meu caminho
Amigos, colegas, vizinhos
Que se encontram nesse bar

2008/06/22

Lamento


Por Rogério Silva


para que acordei?
para ver os biguás em vôo?
para ver o dia ensolarado?
para ver as aves voando?
para ouvir as águas batendo?

o barulho.
o som da natureza,
as nuvens, poucas,
as gaivotas, muitas.

o canto.
o canto dos pássaros,
dos micos.
o zunido da abelha.
tem abelha por perto..!

um latido. um choro de criança.
cachorro e criança pequena também...!
os motores. tem carro passando...
tem gente falando...

começa a esquentar. é o sol.
mais carros, mais gente.
motores aceleram no sinal.
o apito. pi pi pi, pi pi pi, é o guarda.
nem notei, as lojas já abriram.

já não vejo mais os biguás,
o sol toma conta de tudo
as aves voam longe,
não ouço mais as águas,
nem o seu barulho.

a cidade fervilha,
formigas humanas por todos os lados.
me pergunto.
para que acordei?

para ver um mundo maravilhoso,
que se desmancha em poucas horas?
um mundo moderno,
que se impõe. Permanentemente?

cidade grande,
maior do que a viva natureza?

que pena!!!

2008/06/05

Como sopa de letrinhas

Por Rogério Silva

começou como sopa de letrinhas.
com aquelas letrinhas podiam-se formar palavras.
as palavras junto com outras, podiam construir um muro,
muro de tijolo.

tijolo com tijolo num desenho lógico,
um do lado do outro. espaço vazio.
primeiro para o lado,
depois em cima, mais acima,
e o muro estava pronto.

um muro, uma muralha.
podia ser grande. muralha da China.
quantas palavras, numa obra.
a de Freud tem mais de vinte volumes.

a metáfora da sopa de letras. do processo criativo da escrita.
ingredientes, temperos, o tempo de cozimento,
o modo de servir, tudo isso é importante
sopa apetitosa.

Muita pimenta ou muito sal
pode estragar a sopa irremediavelmente.
mas é preciso ousar.



Veja também no blog Freud Explica Por uma questão de direito

2008/06/02

BRINCADEIRA DE CRIANÇA

Por Rogério Silva

ando pra lá e pra cá,
e de cá pra acolá.

perdido na escuridão do dia
sem a companhia de mim.
sem lenço. sem documento,
perdido no vazio. no vazio a solidão.

noite a dentro
não sou eu quem está perdido.
são os que vagam.
só eu os vejo.

dacolá pra cá,
de cá pra lá.

noite e dia se confundem,
me confundem ,
me fundem....
perturbam-me o sono e a vigília.

a solidão que não tem cor. nem cheiro,
não tem nome, nem dinheiro
tem fome. tem fome...
tem fome a solidão.

brincadeira de criança. pique esconde....
chicotinho queimado. com quem está o anel?
comigo nunca esteve.
tem fome. a brincadeira de criança me consome.

2008/05/23

debaixo do edredom

Por Rogério Silva


no outono, à noitinha
um dia chuvoso.
os dedos manhosos de Tom Jobim,
o coração se enche de alegria.

as gotas da chuva. a luz de vela
o crepitar do fogo na lareira.
o piano de Tom.
cada som, um a um.

chá quente. torradas e mel.
um espirro. talvez o perfume.
sutil, sem cheiro,
distinguia em meio a tantos.

algum tempo ela não vinha.
chegou sem aviso.
nunca gostou,
mas acostumou.

ela se aproximou bem devagar.
tomou o seu corpo.
amortecido a esperava.
entregou-se sem resistência.

derrubou-o ali mesmo
na sala, apoderou-se dele.
debaixo do edredom
a noite inteira.

a lareira se apagou. amanheceu.
Tom já não tocava.
nem a chuva caia.
apenas ele e ela.

febril, ardia.
a boca seca pedia água.
olhos arregalados pediam ajuda.
nenhum som mais se ouvia.

oito horas. a diarista chegou.
trazia pão, café e leite.
viu-o no sofá. ficou apavorada
ele tremia dos pés à cabeça.

providenciou.
o médico curou.
maldita gripe.
talvez no próximo outono...!

2008/05/17

A alegria de um coroa

Aplausos para Nilton Santos, lenda do futebol, que ontem fez 83 anos

Armando Nogueira

Acordou bem cedinho. Estava louco para rever a sua cidade. Abriu a janela do apartamento e deu de cara com uma colossal manhã de sol, dessas que só mesmo o Rio de Janeiro é capaz de aprontar em pleno inverno. Pois a história que agora te conto, leitor, passou-se no recente mês de agosto.

Para não perder tempo, que as férias eram brevíssimas, o nosso amigo tomou uma xicrinha de café preto, enfiou no bolso uma pera, pra mais tarde, e saiu pelo Aterro do Flamengo, feliz da vida, de bermudas e tênis "Conga".

Caminhava e distribuía seu contentamento entre as árvores do Aterro, boas amigas que ele já não via há dez anos, quando deixou o Rio para ir cuidar de uma fazendola no interior de Minas.

Pelas tantas, quis tomar sol. Despiu a camisa de malha, deitou na arquibancada do campinho de futebol de salão e assim ficou um tempão, entregue ao regozijo de merecido repouso. Tamanho era o sossego que até chegou a tirar uma soneca.

- Ei, moço! bom-dia!

Era a voz de um dos três garotos que chegavam com uma indisfarçável secura de bola.

- Quer fazer um racha com a gente? A gente joga dois-contra-dois.

Deitado estava e deitado respondeu, no embalo:

- Vamos lá, pelada é comigo mesmo!

Resoluto, levantou-se, sacudiu as pernas e foi logo entrando no campo. Um campo de barro. O dono da bola, um menino de seus quinze anos, fez a apresentação da turma:

- Eu sou o Marcio, esse aí é o Dico e aquele é o Leo.

Nem esperou que o coroa se identificasse. Queria mais era começar logo o racha.

- Olha aqui, vai ser eu e o Dico contra o senhor e o Leo.

Pela rapidez da escalação, o coroa sentiu que devia estar entrando numa fria: o bom de bola, ali, devia ser o Dico. Discretamente, deu uma olhada e viu que o Leo não tinha a menor pinta. De qualquer modo, chamou de lado o Leo e propôs uma chave: o Leo lá na frente, ele mais atrás. Antes, porém, um teste sem aparentar outra intenção a não ser aquecer o corpo: na verdade, queria mesmo era saber se o Leo era de bola, ou não. Tocou a bola na direção do Leo para ver que bicho dava. A bola beliscou a canela do Leo. O coroa chegou a pensar em desistir. Um sujeito de 61 anos, meio barrigudo, cheio de cabelos brancos:

- Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui no meio desses meninos; uns meninões de quinze anos?

O diabo é que ele já tinha aceito o desafio. Não ficava bem correr da raia. Afinal de contas, não era a primeira, nem seria a última vez que a vida metia o nosso coroa em batalhas decisivas.

No meio do campo, o dono da bola vai cantando as regras do jogo: a partida é de cinco. Quem fizer cinco primeiro, ganha. Não vale gol direto. Não pode pegar a bola com a mão, só se já começar no gol de saída.

E como ninguém sequer pensou em jogar no gol, a partida começa com os quatro na linha. No centro do campo de terra batida, a bola de futebol de salão, por sinal que um tanto surrada.

A saída, lógico, é do Marcio. Marcio pro Dico, Dico pro Marcio, que tenta um drible. O coroa, vigilante, rouba a bola e contra-ataca. Procura o Leo. O Leo ficou lá atrás, paradão, sem saber pra que lado ir. O coroa então chuta do meio do campo. Gol!

- Não vale - grita o Marcio - eu avisei ao senhor que não vale gol direto. O senhor tem que passar a bola pro Leo! Ou o Leo pro senhor!

Gol anulado, começa tudo de novo. Saída com o Marcio. O coroa pede tempo. Cochicha uma tática no ouvido do Leo.

Bola em jogo. O Leo dispara e vai ficar plantado bem juntinho da baliza, como pediu o coroa.

Em dez minutos, o time do coroa já está ganhando de três a zero, três gols do Leo. O esquema funciona bem, mas o jogo é incessante, lá e cá. Agora mesmo, o Dico acaba de fazer o dele: três a um. E o Marcio delira com a reação.

Nova saída. O coroa arranca pelo meio dos dois, parece um foguete; vai em frente e entrega, mais uma vez, embaixo dos paus para o Leo fazer o quarto gol.

A essa altura, o coroa já passeia pelo campo, absoluto. Por sua vez, o time adversário já esta literalmente descadeirado.

- Vai, pereba - berra o Marcio, colérico, para o Dico - Vai nele! Você não disse que o coroa não é de nada? Toma a bola dele, palhaço!

A dissensão nas hostes inimigas é profunda. O Marcio e o Dico vão acabar saindo na porrada. Pelo menos é o que pressente o coroa, achando, por isso, que o melhor é liquidar logo essa conta.

Vamos, então, mais que depressa ao quinto e derradeiro gol dessa inesquecível partida. Porque inesquecível, leitor, já, já saberemos.

O Marcio faz um passe longo para o Dico. O demônio do coroa, como sempre, adivinha a jogada, corta o centro com o peito em pleno ar e, antes que a bola caia no chão, amortece na coxa direita. Da coxa, a bola escorre para o peito do pé e pronto: uma, duas, três... o homem começa uma sucessão de embaixadas; faz nove em plena corrida. Na décima, depõe a bola na linha do gol, bem em cima da linha:

- Taí, Leo, faz o quinto e acaba logo o jogo.

- O Marcio, uma fera, vai apanhar a bola e nem volta para dizer até logo. O Dico sai de fininho, mal dá um tchau. O Leo, não, o Leo dá um abraço legal no companheiro de time.

O coroa senta de novo na arquibancada, tira do bolso a pera, dá uma mordida triunfal e fica ruminando, em silêncio, o bendito fruto de uma bela vitória.

Os três meninos foram embora sem saber que deram uma certa alegria ao coroa Nilton Santos, também chamado "A Enciclopédia do Futebol".

"Tu, também em campo,

parecia tantos,

E, no entanto,

que encanto!

Eras 1 só;

Nílton Santos."

2008/05/04

Duas falas

Por Rogério Silva

Sei como começou,
não sei quando.
Eu aqui com você
juntos como se fosse um só.

Neste instante me perco de mim,
só vejo você.

É como se fosse uma coisa só.
Uma coisa, duas falas.

De novo! Começa você.
Você esta gostando? É a minha vez.
Não para! Fala baixinho.
Não quero parar, não ouso dizer.
De novo!... Eu quase não escuto.
Uma vez, outra vez e de novo,
eu não consigo falar.
Mesma coisa, duas falas.

Embriagado pelo amor
não sei o que acontece.

A moleza que lhe dá,
enrijece no meu ser,
o orgulho de te amar.

E as horas vão passando,
cenas repetindo.
Repetindo...
Repetindo...
depois, outra vez...
Série longa,
tempo inteiro...

Já!?
É hora de ir.. .

2008/04/30

Pau no mome

Isso é um texto jurídico verdadeiro, no mínimo,

CURIOSO. - "Pau no Nome"

Tribunal de Justiça (Brasília) recebeu o seguinte requerimento

Esmeraldas, 5 de Março de 2002

Eu, Maria José Pau, gostaria de saber da possibilidade de abolir o sobrenome Pau de meu nome já que a presença do Pau tem me deixado embaraçada em várias situações. Desde já, antecipo agradecimento e peço deferimento. Maria José Pau.

Em resposta, o Tribunal lhe enviou a seguinte mensagem padrão:

Cara Senhora Pau

Sobre sua solicitação de remoção do Pau, gostaríamos de lhe dizer que a nova legislação permite a retirada do seu Pau, mas o processo é complicado. Se o Pau tiver sido adquirido após o casamento, a retirada é mais fácil pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pau do marido se não quiser. Se o Pau for de seu Pai, se torna mais difícil, pois o Pau a que nos referimos d e família vêm sendo usado por várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a retirada do Pau a tornaria diferente do resto da família. Cortar o Pau de seu pai pode ser algo que vá chateá-lo. Outro problema, porém, está no fato seu nome conter apenas nomes próprios e poderá ficar esquisito caso não haja nada para colocar no lugar do Pau. Isso sem falar que, caso tenha sido adquirido com o casamento, às demais pessoas estranharão muito ao saber que a senhora não possui mais o Pau de seu marido. Uma opção viável seria a troca da ordem dos nomes. Se a senhora colocar o Pau atrás da Maria e na frente do José, o Pau pode ser escondido, porque a senhora poderia assinar o seu nome como Maria P. José. Nossa opinião é a de que esse preconceito contra este nome já acabou há muito tempo e que, já que a senhora já usou o Pau do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais. Eu mesmo possuo Pinto, sempre o usei, e muito poucas vezes o Pinto me causou embaraços.

Atenciosamente, Geraldo Pinto Soares

Desembargador Tribunal de Justiça

Brasília/DF

2008/04/26

A ressaca e a cópula

Por Rogério Silva

a marola vai e vem
num gesto lento e preguiçoso.
maroto, mar morto.
caminho da imensidão mar.

as águas profundas
sentem a penetração
do mastro majestoso
águas cálidas, remansos.

profundeza do ser
em erupção,
desejo de prazer
comoção.

mar revolto em ressaca,
cópula voluptuosa.
águas revoltas,
corpos melosos.

cavalos bravios,
cobras rastejantes,
uivos lancinantes.
sons da natureza irracional.

a marola vai e vem
num gesto preguiçoso.
mar morto, maroto.
caminho do amor.

2008/04/24

A lenda do Biguá

Por Rogério Silva

Entre índios Guarani.

Era um índio muito forte e jovem

vivia feliz com sua bela Yerutí,

em sua choça, junto de um grande rio.

A beleza da jovem despertou a cobiça.

Biguá, saiu para pescar.

Capiberá, outro índio guerreiro,

de índole muito má,

raptou Yerutí e levou-a para bem longe,

amarrada em uma canoa.

Ao retornar, não achando sua amada,

Biguá foi avisado.

O desaparecimento era obra de Capiberá.

Desesperado, parte em busca do inimigo.

Capiberá foi alcançado e morto.

Sua frustração foi intensa,

Sua companheira não foi encontrada.

Partiu imediatamente,

buscando-a por todos os lugares que conhecia.

Gritou em altos brados o nome de Yerutí.

Às margens do rio, no interior da selva.

Somente o eco devolvia seu angustioso chamado.

Vencido pelo cansaço

a falta de esperança de encontrar sua amada com vida,

jogou-se nas águas profundas do rio,

achava que ali teria perecido a bela Yerutí.

Buscou. Mergulhou profundamente.

No rio. Na selva.

O eco devolvia o seu angustioso chamado.

Depois de algum tempo,

seus irmãos da tribo avistaram uma ave negra.

Voava insistentemente sobre a choça

onde havia morado o feliz casal.

Em seguida embrenhou-se na selva

e se jogou nas águas do inquieto rio.

Ao consultarem o feiticeiro,

esse garantiu que o tal pássaro era Mbiguá.

Transformado em ave,

seguia buscando sua doce companheira.

Lenda ou não, no céu um bando de biguá

Voa e chama. Chama e voa.

Formação em v segue o líder.

Ora um, ora outro na frente.

Seus sons ecoam longe.

Vão e voltam, num incessante balé.

2008/04/09

POEMA A GUILGAMESH

Por Pablo Cúneo


¿Por qué morimos?, pregunta el niño;

para ser olvido, afirma el incrédulo;

para elevarnos, responde el creyente;

para no ver la muerte, sostiene el poeta.


¿Qué muerte?, pregunta el niño;

la del Padre, afirma el incrédulo;

la del cuerpo, responde el creyente;

la del futuro, sostiene el poeta.


Leia mais em Freud Explica

2008/02/11

Cores e sabores

Por Selma Monteiro Pereira

Uma bailado no ar,

libélulas.

Um corpo despido,

água.

Pés no chão,

pião.

Um sabor,

goiaba.

Uma dor,

marimbondo.

Um olhar,

censura.

Um beijo,

paixão.

A roda gira,

a vida passa.

Encontros. Desencontros.

Maturidade.

A lágrima cai

no papel.

Nasce

a poesia.

2008/02/04

A porta

Por Rogerio Silva


Abre-te, Sésamo!

Ferrolho, fechadura, taramela.

Serventia da casa.

Impõe limite e segurança.


Madeira de lei, oca ou retrátil.

De vidro, entra sem entrar.

Pesada em aço, o cofre.

Nos salões, solene,

em duas abas.


Dentro e fora separa.

Na vida - a oportunidade

No amor - a paixão

Fechada - a morte.


Para Huxley, o céu e o inferno.

O celibatário de Duchamp.

No Barão Vermelho,

A chave da frente.

Eu quero agora

e quero prá sempre...


Chave, campainha, cartão magnético

abre-te.


Ilustração de Marcel Duchamp - Given exterior

2008/01/27

O bom velhinho

O repórter pergunta ao velhinho: - Quantos anos o senhor tem?

- Setenta anos. Responde o velhinho.

- Qual o segredo da longevidade?

- Vinho branco, meu filho. Uma garrafa por dia.

- E o senhor meu bom velhinho?

- Eu faço oitenta e quatro anos no mês que vem.

- E qual é o segredo?

- Vinho tinto e queijo minas. Um cálice no almoço e uma garrafa à noite todo dia.

- E o senhor, o que faz?

- Mulher meu filho, mulher de dia, de tarde, de noite...

- Então é por isso que o senhor vive mais que os outros?

- Mas eu só tento sessenta anos.

2008/01/07

Lou Andreas-Salomé

Ouse, ouse... ouse tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo!
Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

2007/11/29

Solução/dissolução

Num exame de Segundo Grau, questão de Química Básica:


- Qual a diferença entre Solução e Dissolução ?

Resposta de um aluno:

- Colocar qualquer UM dos políticos num tanque de ácido para que dissolva é uma Dissolução.

Colocar TODOS é uma Solução.

2007/11/23

Declaração-testamento dos direitos de viver do idoso






Foto: O velho Mark Twain














• Declaro que quero envelhecer com saúde física e lucidez mental.

• Declaro que quero ser independente, com ajuda mínima para fazer aquilo que não conseguir fazer sozinho.

• Declaro que quero viver ao lado da minha esposa, enquanto for possível.

• Declaro que quero envelhecer com meus filhos e netos me visitando, porque gostam de estar comigo.

• Declaro que quero ser respeitado como cidadão independente do meu estado físico ou mental.

• Declaro que quero ficar na minha residência, na cidade em que estiver morando, enquanto estiver lúcido e autônomo para realizar as tarefas do dia-a-dia.

• Declaro que quero viver com os recursos da minha aposentadoria.

• Declaro que quero ter as minhas necessidades mínimas atendidas.

• Declaro que quero ficar rodeado pelos meus amigos, meus discos, meus livros, minhas lembranças e animais de estimação.

• Declaro que quero continuar ingerindo bebida alcoólica (vinho ou cerveja) e comendo de tudo o que a culinária oferece, enquanto o meu estado de saúde assim permitir, ainda que com moderação.

• Declaro que quero ficar com meu computador atualizado e em operação na internet, para que possa comunicar-me com parentes e amigos ao redor do mundo, através dos meus blogues, e-mail e de outros meios disponíveis.

• Declaro que quero viver sentindo-me útil à sociedade, à comunidade e à humanidade.

• Declaro que não quero que seja instalado em meus aposentos aparelhos de TV, sob qualquer hipótese ou alegação.

• Declaro que meus desejos devem ser respeitados se eu não conseguir mais me expressar ou tomar decisões quanto ao meu tratamento.

• Declaro que não quero medidas heróicas e/ou custosas para prolongar minha vida, quando as chances de sobrevida já não mais existirem.

Declaro que quero morrer com dignidade.

2007/11/22

Vida

Por Rogério Silva

retorno
contorno
em torno

no torno

lugar de criação
poieses de amor.
poieses de paixão.

retorno do recalcado.
pulsão que insiste
comete o pecado.

retorna o retorno
não volta ao mesmo lugar

eterno retorno
desafio à criação.

2007/11/10

Arnaúdo

Por Rogerio Silva

Arnaúdo era um cara chegado às esquisitices desde pequeno. Dizem que tudo começou por causa do seu nome que no registro do nascimento o escrevente trocou o l por ú, ninguém notou e ficou por isso mesmo.

Como esquisitices de menino ninguém nota mesmo, tinha em cima do armário umas dez bolas de couro, algumas pandorgas rasgadas e outros cacarecos.

Quando fez sete anos de idade, seu pai lhe deu de presente uma bola de futebol para incentivá-lo no esporte, mas ele gostava mesmo era de ler revistinha. De quando em quando ele ganhava outra bola, ora de basquete, ora de vôlei. Até bola de tênis ele ganhou, mas elas ficavam lá, murchas e empoeiradas. O que ele gostava mesmo era de ler, e na escola era tido como nerd.

Esquisito ele era, mas só não dava para dizer que fosse boiola, pois vivia sempre muito bem cercado de lindas garotas.

Queria estudar Direito, fez vestibular e passou. Fez o curso com brilhantismo, formou-se e abriu um escritório. Foi procurado por pessoas que queriam o divórcio, mas todos se reconciliaram e não conseguiu realizar umzinho se quer. Só então se deu conta de que havia se formado em Psicologia e não em Direito.

O seu casamento foi outra coisa muito engraçada! Conta-se que ele passava pela catedral quando viu Laurinda vestida de noiva, linda e maravilhosa, chorando sentada nos degraus da escada. Ela era mesmo muito bonita! Todos a olhavam com admiração, espanto, compaixão e dó. Arnaúdo aproximou e perguntou o que havia acontecido. Sabendo que fora abandonada pelo noivo ele de imediato, se ofereceu e casou-se com ela, ali mesmo.

Já estão casados fazem treze anos, mas sempre moraram separados e nunca tiveram filhos.

Mas a história mais esquisita mesmo é a do celular. No momento que estou escrevendo ele já deve ter mais de vinte celulares, mas não pense que ele é um colecionador obsessivo. Não. O primeiro celular ele comprou como todo o mundo, numa loja que fazia uma interessante promoção.

Certa vez, numa boate viu uma loura estupenda com celular na mão e não resistiu, percebeu, era só mirar o seu celular para o dela e mandar um torpedo: "Aqui é o Arnaúdo, tô apaixonado por você, acho você um tesão e quero te encontrar aqui mesmo na boate..." e a mensagem caíra na caixa postal. Um cara tipo “armário” saiu do banheiro e pegou o celular indo sentar-se com amigos. Como todos os celulares têm bina ele não quis correr o risco, logo procurou o cara e ofereceu boa grana pelo celular.

Este foi o primeiro celular extra que ele adquiriu. Daí pra frente ficou cada vez mais fácil. Tudo era ocasional, mas o mais incrível foi quando esteve em Recife. Lá havia um casal que vivia em litígio e muitas vezes ele era o pivô do conflito. Renê e Claudete já eram grandes amigos dele antes de se juntarem, mas Renê nunca escondeu o ciúme que tinha de Claudete por ser amiga íntima de Arnaúdo.

Claudete assim que soube da chegada de Arnaúdo ligou para seu celular a fim de marcar um encontro entre eles na praia de Boa Viagem. Marcou dia hora e local e depois desligou. Arnaúdo ficou indócil com a perspectiva de revê-la e não resistiu, ligou novamente para ela. Neste momento ele se encontrava próximo a uma banca de jornais e não percebeu a aproximação sorridente de Renê que já o reconhecera, de longe. Aproximou-se risonho, mas mudou de cara quando ouviu o que ele falava: “eu sempre te amei e estou louco para reencontrá-la”.

Mal acabou de dizer a frase, percebeu a mudança no rosto de Renê. Imediatamente pôs o celular no bolso e trocou por um dos tantos que sempre carregava consigo.

O constrangimento se instalou entre os dois como que definindo como iria difícil à convivência, quando Arnaúdo sacou o celular e disse: Você não vai acreditar eu estava agora mesmo falando com Ritinha, lembra dela?

Renê pegou o celular desconfiado e observou o último número discado. Ficou aliviado.

Ufa! Às vezes ter muitos celulares é a salvação.

2007/11/03

A velha camisa de linho

Por Rogério Silva

Genivaldo acordou num belo dia com o sol a pino, estalando e queimando os seus miolos. O papelão onde dormia já estava bastante danificado e o cheiro de urina entranhava por suas narinas ou por qualquer outro lugar contaminando seus ossos e vísceras.

Àquela hora a quantidade de pessoas que passavam pela rua já era muito grande. Vinham de paletó e gravata, de saltos altos, elegantes ou nem tanto, em mangas de camisa arregaçadas, com pastas, bolsas descuidadas, alunos, ambulantes e outros transeuntes. Parecia uma procissão surgida de vários lugares. Alguém parava, olhava para seu relógio, olhava para um lado e para o outro e atravessava a rua para entrar numa das procissões que passavam no outro lado da rua.

Genivaldo (será que ele se lembra desse nome?) às vezes olhava para o seu pulso mecanicamente como se também quisesse saber as horas. Esse gesto talvez venha do tempo em que controlar a hora tinha para ele algum sentido. Hoje, simplesmente olhava, mas não saberia por quê. O sol estava muito forte e ele não tinha nada para fazer a não ser perambular em errância pelas ruas. Apresentava um aspecto, que de humano só sobrava o fato de andar em pé. Seu corpo era esquálido e sua barba espessa. Vivia sujo com uma camisa, ou melhor, o que restava dela e que só tinha uma das mangas esfarrapada. A cor já não dava mais para se distinguir. A calça tinha um dos lados externos totalmente rasgados, deixando à mostra as partes que a maioria das pessoas preserva como se só elas as possuíssem e mais ninguém.

Ah! Se eu ainda tivesse cueca! Parecia pensar em silêncio numa certa cueca de seda grená, que ganhara de presente da sua Zefa. Tentava lembrar-se da mulher num misto de saudade ou amor ou sabe-se lá o que.

Andava ainda pensativo e distante quando encontrou uma guimba de cigarro ainda acesa, pegou-a e fumou até não poder mais segurar. Seu estômago roncava igual a uma cuíca de carnaval. Era preciso achar alguma coisa para comer. A esse chamado, instantânea e instintivamente, ele estendia a sua mão na direção das pessoas no intuito de receber alguns trocados. A maioria das pessoas olhava-no com desdém, nojo, pouco caso, ou ainda apertavam os seus passos quando estavam próximas dele. Havia até quem tapasse o nariz, provavelmente para não sentir o cheiro de budum acumulado por muitos dias sem banho. Essas atitudes nunca lhes passaram despercebidas. Porém ele não se perturbava muito, já estava acostumado com o seu próprio cheiro. Cheiro que já não sentia mais.

Nessa hora lhe vinha na memória, à lembrança dos tempos de escola. Lembrou de um colega de turma (como é mesmo o nome dele?) que tinha por hábito não tomar banho e vivia cheirando igual a um gambá. Naquela época ele era pobre, mas tinha orgulho em manter algum asseio.

Numa manhã de muito calor, o asfalto e o cimento das calçadas lhes queimavam os pés descalços. Carregava debaixo do braço um embrulho feito com um jornal, esfarrapado, onde se encontrava uma camisa de linho. Presente de sua dinda. Única coisa que lhe restava do mundo civilizado e que nunca usou. Ela estava muito suja e amarrotada, mas guardada para usar no dia em que voltaria para casa (?).

Continuava perambulando pela rua remexendo as casambinhas de lixo penduradas nos postes até que encontrou um pedaço de pão que ainda não estava totalmente mofado e comeu-o assim mesmo. Encontrou também algumas bananas meio passadas e amassadas que guardou num dos bolsos, ainda inteiros. Serviria para mais tarde quando tivesse mais fome. As vitrines mostravam coisas que ele desconhecia e não tinha a menor idéia para que servissem. Fazia tempo que estava na mendicância. Viu uma caixa parecida com uma televisão, conjugada com alguma coisa que para ele devia ser uma máquina de escrever. Na tela, os quadros mudavam de forma e de cor a todo instante. Mesmo sem saber do que se tratava, ele ficava ali, parado, como que capturado pelas imagens produzidas por aquele aparelho.

Na rua onde estava o barulho era infernal. Buzinas de carro, motores de veículos acelerados, músicas diferentes vindas das diversas lojas e gente falando. Tudo se misturava aos apitos dos guardas e aos berros dos camelôs. Certa vez teve sorte ao ver uma criança deixar cair no chão um saco quase cheio de pipocas. Enquanto catava, pipoca por pipoca, viu alguém que deveria ser a mãe da criança, dar-lhe piparotes em tom de reprovação enquanto a criança chorava copiosamente.

Naquele dia conseguiu acumular o suficiente para tomar um trago de pinga no bar do Seu Manoel, aonde ele ia sempre que tinha algum trocado. Ultimamente, Seu Manoel só lhe servia pinga em copo descartável, porque os fregueses logo o enxotavam do bar, o que fazia com que ele saísse do bar blasfemando qualquer coisa numa fala indecifrável.

Vez por outra ele pensava nos seus pais e irmãos. Tinha três irmãos quando veio para o Rio de Janeiro tentar a sorte. Mal se lembra da mãe e do irmão caçula, que se estivesse vivo talvez estivesse careca, puxou tio Lino. Genivaldo era mais velho do que ele quatro anos. Ao lembrar disso ele pensava, com tristeza, que a morte não queria saber dele e também ninguém queria. Continuava cuspindo sangue e o seu estômago ardia como se estivesse em brasa. Já esteve internado por conta desses sintomas e o médico havia lhe prevenido que se continuasse a beber não demoraria muito. Iria morrer. Continuou bebendo e nunca morreu. Não sabia bem se isto era uma vitória ou uma derrota, mas o fato é que não morreu.

Vez por outra lhe dá um aperto no peito e vem uma vontade de chorar, mas não consegue. Não tem lágrimas. Talvez gostasse que alguém lhe abraçasse, lhe falasse alguma coisa ou ao menos olhasse para ele: sem nojo, sem asco, com ternura, por que não? Nem mesmo os parecidos com ele gostavam de dividir o mesmo espaço. Talvez pensasse: eles não sentem o que eu sinto. Será que sou tão diferente assim?

Genivaldo só consegue ver a sua imagem quando dá de cara com uma vitrina ou poça d'água. Seus cabelos quase embranquecidos se encaracolaram e sua barba espessa toma metade de seu rosto. Às vezes cofiando, puxa um tufo de cabelos que apresentam um nó definitivo.

Anoitecendo a procissão, diminuiu. O que se viu então foram alguns gatos pingados. Seu corpo doía anunciando a necessidade de um cansaço de tanto fazer nada. De tanto catar guimba de cigarro, pedaço de pão e resto de sanduíche, de salgadinho, de refrigerante em lata, ou qualquer coisa que servisse para comer ou beber. Foi preciso procurar um trapo de pano, papelão, ou o que pudesse para forrar o chão debaixo de uma marquise para poder dormir. Seu corpo cansado e o sono foram suas únicas companhias naquele pedaço de calçada. Quem sabe naquela noite Genivaldo pode ao menos sonhar com o dia em que poderia vestir a sua camisa de linho e aí ter alguém para lhe abraçar e talvez até poder chorar.

2007/11/01

Cada um com o seu credo

Por Rogério Silva

O Doutor é um médico muito sério, conceituado e respeitado em sua cidade, no interior do Rio de Janeiro, mas sempre que pode, no fim do expediente, aproveita para encontrar com seus amigos no bar.

Após alguns goles ele volta pra casa e encontra D. Maria sempre de cara amarrada. É que D. Maria detesta quando ele vai para os bares. Não gosta de bebidas, mas aceita que tenha bebidas e beba em casa.

D. Maria é a beata mais carola da cidade e todos os dias vai à igreja. O Doutor acha isso um saco, mas nada fala, pois compreende a importância dessa atividade para ela.

Em sua casa o Doutor tem uma estante repleta de livros com alguns lugares para as suas bebidas prediletas e D. Maria, dois oratórios cheios de santos que o Doutor mesmo adquire em suas viagens de estudos e congressos.

Certo dia o Doutor exagerou e retornou após alguns goles a mais e D.Maria não agüentou:

- Por que todo o dia você tem que ir ao bar se tem tanta bebida em casa?

Ele não titubeou e respondeu com outra pergunta.

- E você com tantos santos em casa, por que todo o dia tem de ir à igreja?

2007/10/26

Pensamento chão - Viviane Mosé

lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema

2007/10/19

Eternamente incógnita



“Eu lembro de quando você ainda me amava. Era alguém, pelo menos para mim, encantador!

Carinhoso e apaixonado como nunca antes (nem depois) encontrei. Entregou-se completamente, se jogou imaginando ter asas para conseguir voar. Quando caiu e se machucou, queria saber quem havia cortado suas asas, sem sequer perceber que elas nunca haviam existido. Criou um culpado para seu sofrimento: eu. Não conseguiu aceitar a inconstância dos sentimentos e se rebelou contra eles. Talvez por ter se iludido, talvez inexplicável sentimento de repulsão, sem carinho: uma incógnita! Pergunto-me diariamente qual das versões suas que eu conheço é a real e me perco em explicações que não explicam nada. Tento justificar seus erros, mas quando me dou conta estou arranjando justificativas que não justificam nada.

Será que você se entende? Não consigo acreditar, não acredito em nada, desconfio de tudo, não acredito em ninguém, tudo por tua causa. Fico confusa porque apesar de você me demonstrar toda sua frieza e todo seu desinteresse, não entram na minha cabeça de jeito nenhum que você seja assim. Por baixo dessa máscara de meu garoto existe um menino uma criança carente, sem chão, com medo, que quer se segurar em qualquer coisa ou qualquer pessoa que considere mais forte.

Não sei o porquê de eu me preocupar ainda com isso.

Não saberia explicar porque ainda, até hoje, procuro explicações para seus atos.

Não sei se algum dia você vai ler meu relato, mas sei que um dia essa dúvida não me incomodará mais. Não sei o quanto você se importa e nem o quanto eu me importo, mas sei que sou a única que ainda penso nisso”.

Autor: Incógnita

Publicado no Jornal Primeiros textos do Colégio Módulo de Macaé

2007/10/11

Arte de João Paulo Maia


Magníficos trabalhos de João Paulo Maia

2007/10/04

Carimbo

Por Rogério Silva

Imprime e marca
Tinge, figura
Com tinta
Forma distinta.

Palavra
Figura
Transmitida
Impressão
Repetição.

Marca papel
Figura papel
Palavra papel
Tantas vezes...

Já não há mais marca
Não há mais tinta

2007/09/30

Botequim João do Rio

Por Rogério Silva

O botequim bem que poderia ser chamado de “Botequim João do Rio”. Não é só por que fica na Rua Paulo Barreto, mas porque ali se reúnem homens que de certa forma relembram o perfil de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, aquele que deu nome à rua.

Ali não se reúnem só mulatos, barrigudos e homossexuais, não, isso ficaria óbvio demais, mas é que sinto revigorar o espírito das primeiras décadas do século passado. Época em que acadêmicos da estirpe de João do Rio, Emilio de Meneses, Olavo Bilac e outros se reuniam em botequins para gozar com a cara do mundo de seu tempo.

No final da parte da manhã começam a chegar, um a um daqueles que constituem a turma de boa cabeça do “escritório”. O mais assíduo, e dos primeiros a chegar, fica em pé no balcão. Toma a sua cerveja devagar. E com sua fala mansa, conversa com um, conversa com outro e, às vezes, acaba ficando até mais tarde.

O principal horário que essa turma se reúne é o horário do almoço, o que obviamente incomoda, muitas vezes, o dono do local e também os comensais que ali vão só para almoçar.

Duas Brahma e a conta, não, duas Skol, uma Caracu e um maço de cigarro. Há quem peça também uma “bobagem” ou um maracujá, ou uma latinha de cerveja, que é bebida até a metade, um torresminho, ou um peixinho ou qualquer dessas coisas que só tem em botequim.

As esposas têm certeza que lá tem mulher, se não por que eles iriam querer ir lá todos os dias? Vez por outra um celular toca. É a coleira eletrônica. Às vezes aparece mulher, mas sabe como é, mulher que freqüenta botequim é homem, não no strictu sensu, mas no latu sensu.

Dá pra ver que essa turma que já tem uma certa idade, em grande parte são aposentados e que esse é um momento que precisa ser cultuado. Como todo ócio esse também tem seus membros e suas cadeiras cativas e seus hábitos imperturbáveis. Uns são engraçados e espirituosos; outros chatos, repetitivos, teimosos, avarentos. Outros gostam de contar piadas velhas ou desviam o assunto só para chamar a atenção. Essas qualidades se misturam dando resultados inusitados.

O interessante é que tem sempre aquele que se acha mais habilidoso em certos assuntos que não fizeram parte do seus afazeres cotidiano. Certa vez disicutia-se sobre o modo de fazer o angu à baiana se seria com miúdos de boi ou de porco. Alguém afirmou que era de boi, pois o de porco chama-se sarapatel, mas um chato teimou que era de porco e outro se deu ao trabalho de procurar no Google e comprovou com mais de dez cópias que angu à baiana é de boi e o sarapatel é que é de porco. Além de fechar a questão afirmando o contrário, o chato afirma que o Google estaria errado e o outro também.

Essas coisas só acontecem em botequim.

Onde você encontraria um mineiro que ficaria indignado quando do alguém lhe trás um texto de Carlos Drumonnd de Andrade, cujo título é Ser Mineiro? Um outro que lê diariamente a seção “cartas do leitor” de um jornal e acredita que sabe tudo sobre política por causa disso? Um outro que entende tudo de carro, mas o que gostaria mesmo é de ter sido policial. Um outro que não bebe cerveja antes do almoço mas, de vez em quando, traz uns petiscos, aliás, deliciosos, para quem está bebendo? Equivocadas ou não, essas controvérsias políticas, religiosas, futebolísticas ou sobre mulheres costumam acalorar as discussões sem vencedores ou vencidos, deixando sempre em cada um a sensação de que ganhou a discussão.

É pensando nestas coisas que gostaria que o botequim chamasse João do Rio, pois faz-me lembrar um interessante conto de Paulo Barreto intitulado: O homem de cabeça de papelão.

No conto, Antenor, depois de tantas criticas a sua cabeça, resolve levá-la para o conserto, sendo esta substituída por uma outra de papelão, enquanto aquela seria consertada.

Segundo o autor, depois de certo tempo Antenor foi buscá-la e ouviu do negociante: “- Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.” Antenor ia entregar a cabeça de papelão e pegar a sua. Contudo conteve-se. Pensando no desconforto que a sua cabeça trazia e a serenidade da cabeça de papelão ponderou: “- Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.”

E, em vez de viver um Antenor no País do Sol, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável, viveu um Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

No botequim sempre se pode alguma coisa, afinal botequim também é cultura.

Caricatura de João do Rio por J.Carlos para a revista Fon-Fon


2007/09/25

Tarde de verão

Por Rogério Silva


I


Tarde de verão
praia de Ipanema
sol a pino.
Horizonte, céu, mar
rasgo de luzes refletidas
liga a praia às Cagarras.

II

Cuidar da criança,
molhar-se no mar
beber alguma coisa, papear.

Monotonia gostosa
olhos fechados,
deixar-se levar.
Burburinho das pessoas,
de grupinho em grupinho
ouve-se um pouco da conversa,
sons misturam-se
não formam nenhum sentido.

III

A tarde pendia
olhares perdidos
distantes

na imensidão da paisagem
ultraleve surge,
ao longe,
fascinante!

IV

O ritmo do motor
determinou sua observação.

Dinâmica de integração
ultraleve e paisagem,
convite à dúvida
e à curiosidade.

V

Imagem única
mar, gente, areia,
prédios e montanhas.
ultraleve aparecia e desaparecia.

VI

No brilho do sol
linha do horizonte,
ao passar a sua frente,
fez mudar a posição
para vê-lo partir
na outra direção.

Ficava pequenino
ofuscava o sol,
até se perder de vez,
da visão.

VI

Se deu conta,
já é tarde.
Ondas batendo
ninguém na água
muito menos na areia.

VIII

Os garis recolhiam detritos
deixados pela multidão,
removiam demarcação.
a areia parecia nua
como no alvorecer.

IX

Hora de ir embora,
mas ainda havia sol,
sua única razão de estar ali.

Lambia sem calor
a brisa leve dominava o espaço.

Vestígio da presença,
só mais adiante
onde os garis ainda não passaram.

X

Em volta, poucas pessoas
deixavam se levar pela calmaria
pareceu reencontrar o seu olhar.

Deu por falta do menino Daniel.
Procurou no mar,
em volta, nada.
Perturbou-se.
Perguntou a um, a outro
ninguém soube dizer.

XI

Levantou-se,
coração descompassado,
procurou ajuda,
do posto de salvamento
avistou o menino ao longe.

Pacientemente, esperava
o famoso sanduíche de lingüiça
da barraca do uruguaio.

2007/09/21

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.

Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948

Frases d(ee)feito



por Rogério Silva


escrever,
morrer nas palavras.


desenhar,
riscar no branco.


investir,
arriscar no banco.


cantar,
fazer da voz um instrumento.


um bom vinho,
servido em cálice, degustado em silencio.


uma boa mulher,
servida na cama, faz amor em silencio.


com peixe, tome vinho branco
e com vinho beba água.


no universo,
tudo é tão grande, o pobre fica ainda mais pobre.


a cada dia que passa,
eu dou um passo na vida.


beber para esquecer não da porre,
você esquece de beber.


se beber para esquecer,
pague antes de beber.


salvador é aquele que tem esse nome,
o que salva é herói.


casar é fazer um par,
a combinação fica por baixo.


regra vem todo o mês,
mas toda regra tem exceção.


o melhor amigo do homem é o carro,
o da mulher é o seu.


o amor começa em qualquer lugar,
e termina com o casamento.


mentir, fala a verdade,
verdade, sempre mentira.


dúvida, tenha sempre uma,
dívida, procure nunca ter.


se for beber não dirija,
aliás, não dirija nunca.


o que você sabe, você sabe,
o que os outros sabem, você vai saber depois.


dia de cão,
quando ele encontra uma cadela.


já não se fazem mais cavalheiros,
e nem damas.


infância, não sabe nada,
adolescência pensa que sabe tudo...


adulto, acredita no futuro.
futuro, não acredita no adulto.


terceira idade, velhice.
velhice, uma merda.


o que é, é.
o que não é, bem deixa pra lá...

2007/09/20

Obra inacabada

Por Selma Monteiro Pereira

Ásperas mãos percorrem
com delicadeza formas pétreas.
Viajam em pequenos barcos.
Mergulham com os peixes.
Escalam montanhas.
Dão vida às plantas.
Asas aos pássaros.
Com seus toques mágicos,
desvendam mistérios,
esculpem corações.
Constroem o belo:
eterno e vulnerável.


A incerteza se instala,
cresce, sufoca e impede
o entalhe perfeito.
Surge a ruptura.
Um coração se fragmenta.
A magia se desfaz.
Criador e criatura se fundem
na cor que escorre
dessas feridas mãos e
inflama os multifacetados cacos
de uma obra inacabada.

2007/09/13

Retirado

Por Selma Monteiro Pereira


2007/09/10

O Homem

Por Giberto Monteiro

Visando além, nas findes do futuro,
Na mocidade, o homem descuidado
Das mil venturas, que lhe vão ao lado,
Tenta alcançar o seu ideal mais puro.

E segue e segue e sempre esperançado,
Sempre almejando o fugitivo muro
Transpor, que lhe separa incerto, escuro
Dos climas, -onde põe o bem sonhado.

Mas na velhice como tudo muda!
Nos fatos do passado em vão se escuda,
Já do futuro lhe devassa o norte:

Bem perto, o frio e a treva - eternos noivos -
Nota no campo reflorido em goivos
Onde indomável predomina a Morte.

2007/09/08

Tela branca


Por Rogério Silva

Tela branca de todas as cores,
cor da vida, cor do amor.
Nela vejo a forma do teu corpo,
as curvas do teu ser.


Tela branca de todas as luzes,
as luzes dos olhos,
o brilho do olhar.


Tela branca de todos os corpos,
róseos seios, bicos escuros,
contornam a brancura da pele.
Ralos pêlos púbis sombreiam o ventre.


Pernas alongadas,
os braços se agitam
procurando um abraço.
Os cabelos desalinhados, espalhados
aumentam o contorno.


Tela branca de todos os amores:
você.

2007/09/04

O inconformado e a ressaca


Por Rogério Silva


Por que no Brasil todo mundo gosta de vinho tinto suave?
do sabor artificial de morango, arrrrrh!
E o tendenciosismo do jornal O Globo e da revista Veja?
Ainda bem que existe o chope!

E tem coisa pior, que o eterno verão do Rio de Janeiro?
Que o cafezinho com adoçante,
pizza, pizza e pizza isso, pizza aquilo?
Salta outro bem gelado!

Peito de frango é palha;
a voz do Faustão gralha, enche a sala e entope os ouvidos,
o filé minhom é tão insoso e tem gosto de Idiche.
Uma braminha até que cai bem.

Mac x, big Mac, até a fachada do Mac Donald é horrível.
O programa Fantástico deprime.
O caldeirão do sábado dá um dinheirinho pra uns
e engrulhos em outros.
Que tal uma rasteirinha!?

A violência urbana mata,
a da polícia também...
Salta um traçado bem grande.

E o movimento cansei, quem diria...
nunca se cansou de votar em corruptos impunes
agora cansou dos que são acusados.
Um Romanée Conti só pra brindar

Mais do que televisão na sala,
sapato novo, apertado,
cerveja quente, mulher na TPM,
e salário sem atualização há anos.
Não tem coisa pior, tem!?

Tem,

A ressaca!

2007/09/03

Desejo


Victor Hugo



Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,

Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconseqüentes,

Sejam corajosos e fiéis,

E que pelo menos num deles

Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,

Mas na medida exata para que, algumas vezes,

Você se interpele a respeito

De suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,

Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,

Mas não insubstituível.

E que nos maus momentos,

Quando não restar mais nada,

Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,

Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,

Mas com os que erram muito e irremediavelmente,

E que fazendo bom uso dessa tolerância,

Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais,

E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer

E que sendo velho, não se dedique ao desespero.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e

É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,

Não o ano todo, mas apenas um dia.

Mas que nesse dia descubra

Que o riso diário é bom,

O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,

Com o máximo de urgência,

Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,

Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,

Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro

Erguer triunfante o seu canto matinal

Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,

E acompanhe o seu crescimento,

Para que você saiba de quantas

Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,

Porque é preciso ser prático.

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele

Na sua frente e diga "Isso é meu",

Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,

Por ele e por você,

Mas que se morrer, você possa chorar

Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,

Tenha uma boa mulher,

E que sendo mulher,

Tenha um bom homem

E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,

E quando estiverem exaustos e sorridentes,

Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,

Não tenho mais nada a te desejar".

2007/08/30

O ser moral

"Basta que contemples de olhos abertos
a viva natureza,
enontrarás assunto para todo o sempre
a aprenderás a ser modesto."

Karl von Frisch

Por Rogério Silva

O homem, ser moral
Que desafia a natureza
Sempre pensa afinal
Que tem alguma certeza.


Mas ela é mais esperta,
Cumpre ritmos e hora,
Em sua grandeza deserta
Lembra fenômenos de outrora.


Quizera poder voltar à Terra
Numa época mais remota.
Ainda não havia homem e nem fera
Nem caminho nem rota.


Onde estariam os deuses,
Fugazes símbolos de virtude?
Que, com seus poderes,
Trançavam fenômenos a miúde?


A arrogância humana,
Contra a natureza pouco pode.
Mesmo que só se plantasse banana,
A Terra responde, estremece e sacode.


Cumpre seu ritmo lento,
Seu aquecimento global,
Fazendo do clima um tormento,
Para desespero geral.


Geleiras despencam
Camadas de ozônio se abrem
Florestas se transformam
Queimadas consomem.


Não adianta gritar,
E espernear, nem pensar.
Teremos terremotos e tsunamis
E outras causas febris.

Os ricos estarão a salvo
Os pobres serão o alvo.
Os ricos, precavidos protegidos
os pobres desprovidos e combalidos.


Mas a natureza não ri e nem chora
Porque a vida é efêmera.
Se há quem todo o dia ora
Há quem o outro deplora.


No futuro, um novo amanhecer
Mundo hoje impensado, talvez
Novos seres vão aparecer
Grandeza da natureza, altivez.

2007/08/28

Degustação de vinho em Minas


- Hummm...

- Hummm...

- Eca!!!

- Eca???? Quem falou Eca?

- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?

- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...

- Putaquepariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?!

- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?

- Cebesta, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!

- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!

- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é?

- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende?

Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então..

- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!!!

- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzí-lo no...

- Mais num vai introduzí mais é nunca! Desafasta, coisa ruim!

- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...

- Hã-hã... eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...

- O senhor poderia começar com um Beaujolais!

- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!

- Então, que tal um mais encorpado?

- Óia lá, ocê tá brincano com fogo...

- Ou, então, um suave fresco!

- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada!!!

- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!

- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo!!! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...

- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?

- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu?

- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?

- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento!!! Engulidô de rôia!!!

- Mole e redondo, com bouquet forte?

- Agora, ocê pulô o corguim!!! E é um... e é dois... e é treis!!!

Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!!!...

(Autor desconhecido)

2007/08/25

Primavera

Por Rogério Silva

Primavera chegando
natureza enfeitada de verde,
de belas flores
e amores-perfeitos.

A Terra gera vida,
fecundada pela energia do sol,
margaridas e bromélias
violetas e gardênias.

Da cor da esperança,
a Terra mãe gera, germina,
alimenta, amamenta
desenvolve o que esta em seu seio.

Primavera estação da flor
da vida e do amor.
Corações apaixonados
Se aproximam.

Da planta a criação
época de plantio.
O agricultor sonha
faz planos de produção
em forma de brotos
dálias e tinhorão.

Símbolos da vida
os seres que nascem
precisam ser fecundados
para nova era
novos arbores

O vento é a energia
do polem a germinação
de novas rosas
novos amores.

Primavera verdes campos
árvores e pássaros
borboletas alvoroçadas voam
grilos e cigarras cantam.

Ah a primavera!
Prima vera
A primeira verdade
ou o primeiro sonho.

2007/08/18

A palavra


Por Rogério Silva

A palavra fala,
Sozinha, acompanhada,
Demanda, comanda, manda,...

Sublinhada empolga,
inclinada declina.
Clínica, clinica.
Cria idéias,
cria assunto.

Causo.
Causo de vida,
caso de amor,
vida de festa, sonho perdido.
Vida vazia!

É no discurso
da grande fala
que a fala se cala.

Sem nome e sem corpo.
Silencia na voz,
silencia no afeto,
silencia na dor.
Ai! como dói!

A palavra,
sempre ela
a palavra.

Pa-lavra.

Larva que queima,
pá que recolhe, acolhe...
Texto, testículo, prazer;
gozo, ferida, fenda, fruição.

A palavra,
sozinha, desacompanhada,
comanda, manda, demanda...
Nomeia, corporifica.
Re-signi-fica.

P
ublicado no blogue Freud Explica em 31/12/2006

2007/08/17

No boteco

Na mesa do bar, eu era o único representante da área psi, quando Lia, a advogada, chegou.

-Você que é psicanalista poderia me explicar? Todos os dias eu jogo no bingo e eu sempre sei se vou ganhar ou se vou perder. Se eu digo que vou ganhar e jogo, eu ganho. Se eu digo que vou perder, eu perco.

Eu perguntei: - E agora, você está ganhando?

- Mas eu não estou jogando...

Opss! Devia ter ficado quieto!

2007/08/14

A floresta virgem

Por Gilberto Monteiro

A floresta virgem - viridente manta
Recobrindo o solo - tem fascínios tais:
Inspirados carmes, findos tons... Iguais
Não existem, cheios de harmonia tonta...

De manhã, ali, que alegres festivais!
Pela pequenina, musical garganta
De emplumado bando a natureza canta,
Arreada toda de festões florais.

Em seu seio amigo me escraviza o pasmo,
Bebo vida nova, tenho entusiasmo...
Minha ingente angústia vai-se dissipando.

E sob sua fronde, verde firmamento,
Logo alcança o auge meu deslumbramento,
Quando vejo e ouço os tangarás dançando.

2007/08/11

Malvados

2007/08/08

Lembranças

Por Rogério Silva

Encontros
lembranças
lembrança do amor.

lembrança do que se foi,
e o que se foi é sido.

passar por aquele lugar,
lugar de encontrar,

fim da tarde
noite chegando.

apagar da lembrança
desencontro
não dá.

gosta de gostar,
ser mulher, amar.
quer carinho
não quer apanhar.

ah! o primeiro encontro!
com amor
com paixão,
goza o gozo
goza e goza...
gostoso gozar o gozo!

lembrança retorna,
volta ao mesmo lugar
lembrar e lembrar
esquecer
nem pensar

2007/07/31

Pequenina

Por Rogério Silva



Te chamam pequenina,
não te conhecem bem.
Continente virgem, inexplorado,
amor calado, obediente.

Virgem Maria, a santa adorada,
Padre Nosso, a oração vigente.

No humano, o pecado:
o pecado de ser gente.

Gente que ama,
que sofre.
Quer crescer,
ser feliz.
Ser encontrada
encontrar.
Não ousa fazer,
para não pecar.

O pecado do amor,
pecado da alma.
Como saber,
sem perecer!?

Pierina

Por Bernadete Pereira Gonçalves


Que pia, que mia
Que chia, ria fria
Ria da vida frígida
Vida dura, dura vida.

Enquanto chia, vida passa
Quando mia, chia vida
Tudo faz, nada sente
A Pierina da vida


Arregala os olhos chororô
Abre o peito, Pierina
Acorda a mente adormecida
Enterra o pio baixo


Grita alto na vida
Sente a beleza pulsar
Dormindo não dá vida
Vida passa Pierina


Quando a lágrima escorrer
Quente, úmida, salgada
Sentirás no peito
A vontade de ser feliz


Pierina, transforma
Transforma a lágrima
Em saudade e alegria
Congela a alma


Vem Pierina, chama vida
Acende a chama
Não deixa a luz apagar
Mantenha aberta a porta


Longe brilha o sol
Chegarás se caminhar
Caminhar, pouco, rápido
Depende do seu caminhar.

2007/07/29

Madrugada

Por Bernadete Pereira Gonçalves

madrugada dos insones,
dos aflitos,
abandonados.

madruga dos bêbados,
dos desesperados,
separados.

madrugada dos vendavais,
dos temporais
batendo portas e portais.

madruga das mães,
dos bebes chorões,
amamentados

madrugada dos pais
das carecas,
preocupadas.

madruga das chacinas
da pobreza
intoxicada.

madrugada dos bichos,
dos morcegos
batendo asas.

madruga das dores,
das cólicas
fora da hora.

madrugada dos amores
do prazer
dentro da hora.

madrugada dos poetas
dos instintos adormecidos
em cada um de nós.

2007/07/18

IDENTIDADE PERDIDA

Por Rogério Silva

José Américo Rodrigues Palhares, aprendeu a dirigir caminhão quando ainda era muito pequeno. Seu tio tinha um caminhão de entregas e vez por outra o levava a passear colocando-o no colo. A paixão pelo volante e principalmente por caminhões vem desta época e influenciou na escolha da sua profissão.

Palhares mora numa pacata cidade do interior, vive em errância, rodando por todo o país, levando e trazendo mercadorias pequenas ou grandes. Cada viagem dura cerca de um mês, entre ida e volta. Tudo é sempre programado. Toda vez que sai para uma destas viagens, Anunciata de Jesus, sua mulher, lhe prepara um farnel que dá para uns dois dias. Mas acostumado como está com a estrada, não se intimida se dorme, ou se come mal. Não é de beber pinga em serviço, mas gosta mesmo é de tomar uma “rasteirinha” com torresmo e farofa antes do almoço.

- É a “abrideira”! É para abrir o apetite. Ele sempre fala assim.

Uma vez, entre o intervalo de uma viagem e outra, ele saiu com os amigos para festejar a vitória do seu time de futebol. É vascaíno doente. Era tanta cerveja e churrasco que a farra foi até tarde da noite.Quando chegou em casa notou que perdeu todos os documentos. Não soube explicar depois, como seus documentos foram achados espalhados em lugares diferentes e distantes uns dos outros. Todos os documentos foram recuperados, até mesmo um santinho de São Cristóvão que, às vezes ele usava preso no guarda sol do seu caminhão com elástico. Só não achou a sua carteira de identidade. Ele ainda esperou um mês para ver se ela aparecia, como não apareceu, tirou outra. Vaidoso, ele aproveitou um dia de festa da padroeira na igreja, para tirar uma foto colorida para a sua nova carteira.

Durante uma pequena viagem, sentindo muito calor, Palhares resolveu parar em um bar de beira de estrada e pediu uma garrafa de água mineral, enquanto era servido, puxou o lenço para enxugar a testa de suor. Percebeu uma carteira de identidade pendurada no vidro do caixa que parecia com a sua perdida perguntou:

- Moço posso ver este documento?

- Claro, aqui está. É sua? Disse sem verificar.

- É sim, eu a perdi faz muito tempo.Num lugar bem longe daqui. Não sei como ela veio parar aqui.

- Alguém entregou aqui. Se é sua, pode levar. Respondeu o caixa.

A partir deste momento, uma coisa muito estranha invadiu-lhe a alma. Podia-se dizer que ao mesmo tempo em que estava feliz por ter encontrado a sua carteira, um pouco mais estragada, é verdade, mas era mesmo sua. Agora possuía duas carteiras de identidade. Estava perplexo. Comparou o seu retrato nas duas carteiras. Eram bem diferentes. Agora ele tinha uma cara mais séria do que quando era mais jovem.

Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi mostrar para Anunciata o seu achado.

- Vamos guardar esta carteira nova, já que não vou mais precisar dela, colocou-a numa gaveta da cômoda do seu quarto.

- É quem sabe você ainda vai precisar dela um dia? Acrescentou Anunciata.

“E o pior é que agora eu sou dois”, pensou Palhares sem ter coragem de dizer.

Sua vida transcorria normalmente, até que um dia, fez uma vigem junto com outros companheiros em comboio e já passava uma semana, quando de repente, ele parou o seu caminhão no meio da estrada. Seus companheiros de viagem, preocupados com aquela parada brusca e sem motivo, correram em seu socorro. Encontraram-no parado com o olhar fixo, perdido em um ponto distante.

- O que aconteceu homem? Responda! Insistiam os colegas, sem obter qualquer resposta.

Preocupados levaram-no a um hospital na cidade mais próxima. Os médicos que o examinaram não encontraram nada que justificasse aquele silêncio a que Palhares se encontrava imerso, sem responder a qualquer pergunta e nem se quer dizer o seu próprio nome.

Foi levado de volta para sua casa e lá continuou mudo, não falou nem com Anunciata e nem com seus três filhos, ainda pequenos. Tanto os médicos, quanto os outros, ficaram atônitos, sem entender o que estava lhe acontecendo.

Colocado em sua cama dormiu profundamente. No dia seguinte quando acordou, viu o seu rosto projetado no espelho, que ficava estrategicamente posto em frente à sua cama, deu um grito alucinante, pondo-se de pé, imediatamente parando-se diante da cômoda, olhou para a gaveta e rapidamente saiu do quarto, durante um bom tempo não voltou lá e nem saiu de casa.

A partir daquele dia, Palhares passou a dormir na sala e quando precisava de alguma coisa que estivesse no quarto, pedia para alguém ir lá buscar. Para ele, havia “um outro” que ocupava o quarto. Mandou até tirar o espelho do banheiro e passava o dia inteiro perambulando pela casa, em silêncio. Abria os armários e gavetas como se estivesse procurando alguma coisa. Anunciata ficava irritada com ele, pois não estava acostumada com a sua presença em casa por muito tempo, nem com aquela situação. Ainda por cima ele desarrumava tudo na casa. Vivia sempre com a mesma roupa, barba por fazer e aquele olhar perdido. Mal comia e não tomava banho. Todos já estavam à beira de um ataque dos nervos.

À noite, na hora de dormir, quando via sua mulher ir para o quarto, ele era tentado a imaginar que ela iria dormir com outro homem. Vez por outra ele balbuciava algumas palavras desconexas. Vivia na janela olhando um ponto perdido no espaço. Um gesto mais brusco ou agressivo que ele tivesse, parecia que o tiraria daquele estado. Nada disso acontecia. Não chegava perto da janela ao anoitecer . Desviava o olhar de qualquer superfície que pudesse refletir a sua imagem ou mesmo uma sombra. Não falava com ninguém, nem com os familiares, nem com os médicos que o atendia.

Todos os dias, pela manhã, quando sua mulher saía do quarto, ele já estava lá, plantado à porta. O seu olhar era de dar medo. Não falava nada, porém a seguia durante algum tempo e sempre em silêncio.

Esta situação insuportável já durava pouco mais de um ano. Anunciata desconfiava que ele teria ficado assim porque encontrou a carteira de identidade. Possuía agora duas carteiras. Ela não conseguia falar sobre isso com ninguém, ou porque ele a impedia com um “psssiiitt”, ou porque ela mesma não tinha muita convicção dessa idéia, aquilo era muito estranho para ela também.

Ultimamente, porém, ele já se asseava mais. Tomava banho, mas só não fazia a barba e saía para pequenos passeios perto de casa. Sempre que cruzava com alguém que lhe dirigisse a palavra ou o olhar, tirava a sua velha carteira de identidade do bolso e mostrava, como um juiz de futebol exibindo um cartão de advertência.

Um belo dia, ele passeava acompanhado da esposa quando sem se dar conta foi em direção à uma vitrine vendo a imagem de alguém que lhe era muito familiar se aproximando dele. Quando ele já estava bem próximo da vitrine, olhou fixamente aqueles olhos que também o olhava. Ficou ali por alguns instantes, parado olhando fixo para aquela imagem, quando, de repente, deu um passo para trás e com um grito de horror caiu desmaiado ali mesmo, na rua, sendo acudido por sua mulher. Foi levado para casa e logo chamaram o médico que o atendeu. O médico acalmou os familiares, pois não havia necessidade de ser internado.

Anunciata deu-lhe um banho, fez a sua barba e colocou-o na sua cama onde logo adormeceu. Pondo-se à sua cabeceira rezou um terço até a noitinha. Sem saber por que, pegou as duas carteiras de identidade. Alguma coisa esquisita lhe dizia que ela deveria destruir uma delas, olhava as carteiras e se perguntava, “qual?”. A mais nova talvez, pensou. Não, essa não, afinal de contas ele não a vê desde que a colocou na gaveta, a velha talvez seja melhor, já está toda quebrada mesmo. Sem perceber já estava com a tesoura na mão picotando.

Foi tomada por um susto enorme diante daquela atitude e entrou em pânico. “E agora o que é que eu vou fazer com estes pedacinhos?” Pensou, se jogar fora, talvez seja pior, ele não iria saber o que aconteceu com ela, achou melhor guardar na gaveta junto com a outra, Foi o que ela fez.

A noite transcorreu sem novidades. No dia seguinte, bem cedo, Anunciata já havia se levantado quando viu Palhares abrindo os olhos. Sua aparência era de calma e serenidade, já não tinha mais aquele olhar desconfiado e assustador de antes. Vendo a sua imagem no espelho a frente da cama, sem dizer nada, levantou-se indo até a gaveta da cômoda, abriu-a e deparou-se com as duas carteiras juntas, uma inteira e a outra picotada, pegando-as sem entender o que havia acontecido.

Olhou o retrato da carteira nova. Olhou-se de novo no espelho, deixou os pedaços picotados na gaveta. Calmamente foi ao armário, pegou uma mala, arrumou nela um punhado de roupas, sob o olhar assustado de Anunciata, que apenas observava.

Pegou a sua carteira de identidade, colocou junto com os outros documentos no bolso, dizendo:

- Acabou agora tudo vai ficar bem!

Neste mesmo dia, ele convenceu a mulher a preparar um lanche e saíram juntos com os filhos, num passeio de caminhão. No meio da viagem pegou o filho mais velho e levou-o ao colo.

-Está na hora de você começar a aprender a dirigir, um dia você terá que fazer isto.

Na volta, deixou a mulher e os filhos em casa e sem dizer uma só palavra saiu. Nunca mais voltou.

2007/07/13

CONXAMBRANAS E CHUMBREGÂNCIAS

Avô do complexo de castração

"Não se fazem mais juízes como antigamente..."

Reprodução de documento autêntico de sentença, proferida pelo Juiz Manoel Fernandes dos Santos, em Vila de Porto da Folha, Sergipe, em 15 de outubro de 1833, portanto, há 174 anos atrás.

SENTENÇA JUDICIAL

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.

CONSIDERO: QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana; QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO o cabra Manoel Duda, pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos Juiz de Direito Vila de Porto da Folha (Sergipe), 15 de outubro de 1833"

COROLÁRIO: Quem pensar em fazer conxambranas e chumbregâncias com mulher casada ou com moça donzella é melhor que fique longe de Vila de Porto da Folha (Sergipe), porque o Manoel Fernandes dos Santos pode ter deixado seguidores.

2007/07/11

O jequitibá



Por Rogério Silva


há muitos anos majestoso
quem quer que o contemple,
terá sempre o que pensar.


por grandiosidade e curiosidade.
cresceu visitado
silencioso.


da fazenda secular
faz parte o patrimônio
Vicente também.


passada de pai para filho,
hoje na quarta geração.


o jequitibá e o Vicente.
integração


típico analfabeto,
palavras poucas
necessidades também.
é, né! o seu mote.


acostumado na lida
cumpre tarefas
a força bruta é requerida
e o pensamento dispensado.


não é que ele não tenha imaginação.
em poucos tempos vagos
constrói gaiolas
feitas de talos de imbaúba
arquitetura sofisticada,
simples construção.


seu trabalho, o roçado,
plantio e colheita
milho, mandioca e feijão.


de baixo de sol e chuva
começa bem cedo com a manhã
termina com o fim da tarde.


pita o seu cigarrinho
palha de milho e fumo.
nada muda com o tempo,
faz igual desde pequeno.


sua rotina e o seu silêncio
presença desapercebida.
às vezes desaparecia,
surgindo dias depois.


certa vez quando sumiu
já se passavam alguns dias
a preocupação foi muita
se espalhou pela vizinhança.


surgiu como se nada houvesse,
trouxe Rosinha
apesar de acanhada,
sorria felicidade.


o que aconteceu?
é, né! respondeu
a barriga foi crescendo
nasceu um garotão.
se velho já era
ainda viveu um montão.


o gigante da floresta
de longe aflora
quem com ele viveu
conta muitas histórias
como esta de agora.

2007/07/10

As marés da vida

Por Selma Monteiro Pereira


Mares.
Marés.
Vêm.Vão.Voltam.
Suavemente transpassam limites.
Acariciam. Lambem. Lavam.
Demarcam territórios.
Bordam castelos.
Colorem sonhos.
Capturam quereres.
Filiam-se. Espraiam-se.
Amanhece.


Mar.
Maré.
Vem.Vai.Volta.
Ao sabor do vento
esculpe formas.
Suaves. Frágeis. Doces.
Agrestes. Firmes.Eróticas.
Arde. Cresce. Transborda.
Penetra. Encharca. Funde-se.
Entardece.

2007/07/08

Luz de velas, um clima...

Por Rogério Silva


Namorados apaixonados
Brindam juras de amor
Luz de velas, um clima...
Momento inesperado,
Inédito,
Criação.

Movimento diferencial,
Disjuntivo.
Afetos despojados,
O véu esconde desejo,
Fantasia aprisionada
Internos sentimentos,
Um gesto, um olhar,
Um desafio.

Ambigüidade das paixões.
A poesia...
Marca presença
Ilhas queridas,
Primavera se esconde
Sustento e remédio
Afetivo, apaixonado,
Sem muito rigor,
Mas com muito amor,
Sem conveniências
Permitir algumas.

São ciências,
Ledo engano.
Ledo engano?
Durou um ano.
Um ano!

Meus ais libertei.
Não volto mais,
Cheguei.

Encantamento,
Surpresa da alegria,
Toda a acolhida
Encantado lugar,
Encantado luar,
Luar sem cometa,
Caminho, sem fim,

Vejo você,
Você me olha.